Professar a fé (Redditio fidei)

Introdução

Do catecumenado fazem parte duas tradições: a Traditio do Símbolo da Fé (RICA 181 a 187) e a Tradição da Oração Dominical (RICA 188 a 192). «A cada uma das “tradições” — pelas quais a Igreja entrega aos eleitos os documentos da fé e da oração  corresponde uma “redição” ou proclamação pública do Símbolo e da Oração dominical por parte dos mesmos eleitos.
Dado o carácter catecumenal da catequese para aqueles que receberam o Baptismo como infantes, à entrega do Credo (em geral, no 5º volume) segue a Profissão de Fé, como Redditio Symboli (em geral, no 6º volume).
Segue o extracto de um texto preparado na Diocese de Turim (disponível na Internet) em preparação para o Ano da Fé convocado pelo Papa Bento XVI.

PROFESSAR A FÉ: Indicações teológicas

Professar a fé é o primeiro gesto com o qual o baptizado vive e dá testemunho da adesão pessoal a Deus e à sua revelação. No Novo Testamento, quando se fala de “profissão de fé”, não se faz referência só a uma expressão verbal ou a um conteúdo ao que se dá o próprio assentimento. Confessar a fé é, antes de mais, uma escolha de vida, um sentimento declarado, uma forma de existência.

«Cristo habite pela fé nos vossos corações» (Ef 3, 17)

No início, encontra-se o momento experiencial com o qual o crente reconhece Deus como seu Senhor e Salvador. Assim foi para os discípulos que, depois de ter seguido Jesus pelas estradas da Galileia e da Judeia, O reconheceram como Senhor (Meu Senhor e meu Deus, Jo 20,28), Cristo (Tú és o Cristo, Mt 16,16), Filho de Deus (Verdadeiramente este homem era Filho de Deus, Mc 15,39). Assim foi também para os que O encontraram através do anúncio da Palavra e do testemunho dos Apóstolos: como Paulo de Tarso (Act 9,1-19), o etíope de Candace (Act 8,26-40), a multidão que pede o Baptismo, depois de ter escutado o discurso de Pedro (Act 2,14-36).
Em todos aqueles que viveram a experiência da fé, existe a surpreendida consciência de que a mesma fé é um dom que vem do Alto, um gesto de graça, um pedido de amor que espera uma resposta. A fé torna-se assim um assentimento convicto e pessoal ao apelo de Deus, à sua Palavra, à sua Revelação. Através deste «sim» o pensamento do próprio Deus vem habitar no coração, toma corpo em um acto de confiança, de adesão, de obediência: «Creio, Senhor!».

«E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim» (Gal 2,20)

Na origem de cada acto de fé, encontramos um acontecimento: aquele preciso instante em que o amor de Deus alcança o coração do homem. Para descrever a sua experiência de fé, São Paulo não utiliza uma linguagem abstracta, mas de partilha pessoal. O Apóstolo exprime com estas palavras o inefável instante que mudou radicalmente a sua vida, a que chamamos vocação, conversão, baptismo: … amou e a Si mesmo se entregou por mim. Este instante pessoal torna-se, depois, um acto comunitário, ou seja, assume a forma de um gesto de confiança com o qual o fiel entrega a Deus toda a sua vida, como resposta a este dom de amor.
Na Tradição da Igreja, esta entrega de si acontece como no interior de uma «casa»: o rito da iniciação cristã. O rito do Baptismo é a «casa da fé», a «porta» da salvação, o «caminho» que conduz o crente a viver o encontro com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Aqui se consuma, como em um acto de amor, aquelas núpcias místicas que unem a Videira e os ramos, a Cabeça com o seu corpo, o Amor divino com a humanidade: o fiel torna-se filho de Deus.
Como acontece com todos os «pactos», a escolha de fé requer o pleno consentimento, a livre adesão, a coerência de vida. A fé não é mortificação da inteligência , nem renúncia ao exercício da própria liberdade: uma liberdade que no rito da iniciação cristã se exprime perante a comunidade cristã, através da renúncia às obras das trevas para viver como filhos da luz. Esta escolha será depois selada com a unção crismal e com a participação no Banquete eucarístico.

«Estou crucificado com Cristo e já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim» (Gal 2,10)

Com a imersão baptismal o cristão não só exprime a própria livre adesão à fé, mas revive sacramentalmente o mesmo caminho de Jesus: o seu abandono à vontade do Pai, a entrega total de si mesmo por amor dos homens. Toda a vida de Jesus é o cumprimento daquele “Amen” longamente esperado da parte de Deus em relação à humanidade:

  • o sim da obediência fiel de Abraão (Gen 22,1-19);
  • o sim do abandono confiante de Moisés (Ex 3,1-6);
  • o sim da escuta de Israel (Jos 24,1-28);
  • sim da circuncisão do coração profetizada por Jeremias (Jer 31,31-34).

Em Jesus, servo obediente do Pai, finalmente se cumpre aquela resposta de amor tão longamente esperada e desejada por Deus. Jesus é o cumprimento de todas as promessas de Deus. «Através d’Ele sobe até Deus o nosso “Amen” para a sua glória» (2 Cor 1, 20).
No Baptismo, o cristão recebe o dom do Espírito, ou seja, a força para cumprir aquele acto de fé que o pecado tornava impossível. «Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor se não for movido pelo Espírito Santo» (1 Cor 12,3). No «sim» de Cristo abriu-se para o homem a via para o regresso ao Pai e aquilo que a obediência exterior tornava impossível por causa do pecado, agora é possível por causa da graça de Deus que nos foi dada (Rm 3,24). Torna-se possível pronunciar o nosso próprio sim, não por querer humano, mas por dom gratuito d’Aquele que nos amou e entregou a Si mesmo por nós.

«E não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome, dados aos homens, que nos possa salvar» (Act 4,12)

A fé, como o amor, é colocada só naquele de quem se conhece o Nome. Por isso não pode ser genérica ou indefinida: pressupõe uma revelação e requer um contínuo desejo de conhecimento:

  • a Moisés, Deus revela o seu Nome e com a força daquele Nome conduzirá Israel até à terra prometida (Ex 3,13-15);
  • a Jeremias, Deus revela-se desde o seio materno e em seu nome será enviado para profetizar no meio do seu povo (Jer 1,4-10);
  • o próprio Jesus declara que «Quem crê em Mim, não é em Mim que crê, mas sim naquele que Me enviou» (Jo 12,44).

A fé instaura entre o crente e o próprio Deus uma íntima ligação, uma relação de confiança, uma profunda comunhão de vida. No Evangelho segundo S. João encontramos uma intrínseca relação entre acreditar e conhecer: crer significa reconhecer que Jesus é o enviado do Pai (Jo 11,2; 17,3.8.21), o Messias esperado (Jo 11,27; 1Jo 5,1) o Filho de Deus (Jo 20,31; 1 Jo 5,5). O conhecimento, por sua vez, requer um caminho de conversão, uma íntima comunhão de vida, uma experiência concreta de amizade.
A fé, portanto, é o único caminho através do qual é dado ao cristão aceder ao mistério de Deus. Acolhendo o dom da fé, o crente adquire um novo conhecimento espiritual, uma iluminação da mente, um discernimento do coração. Professando a fé, o crente não exprime só um sentimento religioso, uma crença vaga e genérica acerca da existência de Deus, mas exprime um conhecimento preciso d’Aquele em quem crê, vive e existe: um conhecimento que encontra a sua expressão mais elevada no Símbolo da fé.

«É que acreditar de coração leva a obter a justiça, e confessar com a boca leva a obter a salvação» (Rm 10,10)

O acto de fé requer uma voz, um corpo, um gesto, uma acção que exprime o que está no coração e transforma a própria vida. Encontramos nos evangelhos alguns episódios significativos a este propósito:

  • o cego de nascença, ao professar a própria fé (Eu creio, Senhor! Jo 9, 38), prostra-se aos pés de Jesus;
  • os discípulos de Emaús correm a anunciar aos apóstolos o encontro que transformou a vida deles: Na verdade o Senhor ressuscitou! (Lc 24,34);
  • o cego de Jericó professa a própria fé, seguindo Jesus e louvando a Deus: começou a segui-l’O, louvando a Deus (Lc 18,26);
  • o apóstolo Pedro Confessa: Nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus (Jo 6,69) e escolhe por seguir Jesus até Jerusalém.

Desde o início, na comunidade cristã, a profissão de fé vai tomando corpo em uma fórmula partilhada e sintética e em algumas acções que dão testemunho do próprio credo. Nos escritos do Novo Testamento, encontramos uma série de fragmentos que constituem os inícios daquelas formulações do credo em épocas sucessivas. São Paulo recomenda obediência àquela verdade que ele mesmo recebeu e da qual se tornou testemunha (1 Cor 15,1-3). O núcleo primitivo é constituído pela fé em Jesus que morreu e ressuscitou, que os apóstolos transmitem naquela mesma forma por eles recebida: «Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras…» (1 Cor 15,3-5).
Este é o Credo mais antigo do Novo Testamento, composto provavelmente nos anos 35-40 d.C. Sucessivamente, será cada vez mais sentida a necessidade de enriquecer e precisar o conteúdo da fé, quer por causa da difusão de falsas doutrinas, quer devido a uma compreensão cada vez maior da fé. Entre os textos mais antigos, lembramos: o Credo Baptismal na Tradição apostólica e o Credo romano, que constituíram as bases para o sucessivo Credo Apostólico que ainda hoje é proclamado na assembleia litúrgica.
Estas formulações de fé nunca serão consideradas apenas como apreensão doutrinal, mas sempre a expressão de uma confissão comunitária. Embora sendo pronunciadas em primeira pessoa (Eu creio em) são proclamadas durante uma assembleia litúrgica, são a voz de uma Igreja una, a expressão de fé de um povo reunido por um só Senhor: Um só Senhor, uma só fé, um só baptismo (Ef 4,5). Jamais poderá existir uma profissão de fé individual, mas só e sempre conjuntamente pessoal e eclesial.

«Por meio dele ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome» (Heb 13,15)

A celebração eucarística constitui o lugar-fonte onde a Igreja celebra e testemunha a própria fé: Reconheceram-n’O ao partir o pão (Lc 24,13-35). Aqui, de facto, se renova aquele com que Deus jamais se cansa de oferecer com abundância: aqui o Espírito convoca, a Palavra converte, o sacrifício realiza. Em cada celebração eucarística, o cristão repete, de Domingo em Domingo, aquele caminho de fé que o levará a acolher um chamamento (ritos de introdução), a abrir o coração à escuta (liturgia da Palavra), a renovar uma aliança (liturgia eucarística).
Toda a celebração é, podemos dizê-lo, uma gradual “confissão de fé” que culmina no «Amen» que a comunidade cristã proclama ao terminar a Oração Eucarística: «Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a Vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito santo, toda a honra e toda a glória agora e para sempre. Amen».
A raiz da palavra hebraica «Amen» significa estabilidade, verdade, firmeza, e pode ser traduzida pelas expressões “é assim”, “é verdade”. Este “sim”, sanciona o pacto de aliança entre Deus e o seu povo que se consumará depois nos ritos de comunhão. Recebendo o Corpo de Cristo, o fiel responde dizendo: Amen. Aqui se cumpre o prodígio da Páscoa: alimentando-se do próprio Corpo de Cristo, o cristão é transformado n’Aquele que acolheu na fé: «O vosso Amen, vós o dizeis não para confirmar o que foi dito, mas para exprimir a realidade profunda em que vos tornastes» (Santo Agostinho).
Na celebração eucarística há outro momento que dá voz à fé da Igreja: o Credo. Este nasce como texto proclamado na celebração da iniciação cristã, mas depois, no séc. VI, é progressivamente inserido na Liturgia Eucarística dominical e na Liturgia das Horas. Depois de ter escutado a Palavra de Deus, a comunidade é convidada a “reconhecer” o Senhor presente nas Escrituras. A profissão de fé contém os momentos mais importantes da manifestação de Deus na história: a criação, a encarnação, a redenção, o dom do Espírito Santo, a vida da Igreja, a vida eterna.
Professar comunitariamente a fé é o gesto com o qual a assembleia litúrgica exprime o acolhimento da Palavra de Deus e o desejo de renovar a aliança com Ele.

«Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos» (Jo 8,31)

A fé não será jamais nem uma posse, nem uma conquista. Na história da Igreja, como na vida do crente a fé é posta à prova e é reencontrada, obscurece e “volta a brilhar” intensamente. A fé requer uma contínua prestação de contas diante de Deus e uma incessante conversão do coração. Assim São Paulo irá lembrar o seu caminho de vida: «Combati o bom combate, terminei a minha carreira, conservei a fé» (2 Tm 4,7). A fé deve portanto traduzir-se em fidelidade! Exige uma coerência de vida, uma mudança de mentalidade, um agir moral. Não pode reduzir-se a uma simples apreensão doutrinal, mas é sobretudo uma laboriosa procura da luz, uma luta contra as tentações do mundo, um incessante pedido de ajuda.
A fé, portanto, requer a oração: deve crescer e maturar, precisa de ser aprofundada e vivida. Por isso deve ser alimentada e guardada através dos numerosos meios espirituais que a Igreja nos oferece: os sacramentos, a escuta da Palavra de Deus, a vida de caridade, a oração, o aprofundamento teológico, a vida espiritual.
Só se a traditio fidei tiver continuidade na traditio vitae o cristão poderá conservar a fé: «A fé sem obras é morta» (Tg 2,26). Os cristãos são chamados a testemunhar a fé através do amor fraterno, o perdão recíproco, a fome de justiça, a palavra sincera, a coerência de vida. Não deve existir separação entre culto e vida, entre fé professada e fé testemunhada: uma vive graças à outra, em um único gesto que abraça, unificando, toda a existência. Toda a vida é chamada a tornar-se o verdadeiro culto espiritual, o sacrifício vivente agradável a Deus (Rm 12,1).

«Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor» (1 Cor 13,13)

A fé é o dom que acompanha o caminho da Igreja, o sustento na fadiga de esperar, a força nos momentos de dor. A fé, como «viático» é o dom que introduz o cristão no mistério da morte. Ultrapassado este limiar, a fé cederá o passo à visão, a esperança à certeza e tudo será recapitulado no abraço do amor. Confortada por esta certeza, toda a Igreja caminha na fé, é suportada pela esperança, vive na espera do regresso do seu Senhor: naquele dia a fé cessará, a esperança cumprir-se-á e Deus será tudo em todos porque o amor jamais passará (1 Cor 13,8).

PROFESSAR A FÉ: Indicações pastorais

O que é a Redditio Fidei: no antigo Catecumenado, depois da intensa caminhada para se tornar cristãos, no qual se celebrava a Traditio fidei, no Sábado Santo, antes da celebração dos Sacramentos da Iniciação Cristã, acontecia a Redditio fidei, durante a qual os eleitos voltavam a apresentar ao Bispo a fé recebida tendo-a aprendido e começado a viver na Igreja.
De modo em parte semelhante, os que foram baptizados como infantes, que receberam o Credo no segundo Domingo da Quaresma em que frequentavam o 5º volume da Catequese, professam solenemente a fé na comunidade paroquial, por volta dos 12 anos de idade, na presença do Sacerdote.

PROFESSAR A FÉ: Indicações litúrgicas

Na Eucaristia, mistério da fé.
O círio pascal e a fonte baptismal.
A renovação das promessas baptismais (acto pessoal e comunitário)

  • A renunciação: «sim, renuncio».
  • A profissão de fé : «sim, creio».

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Notas finais

RICA – Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos
As citações bíblicas seguem a tradução da nova Bíblia dos Capuchinhos

Indicações pastorais no ano da fé:
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20120106_nota-anno-fede_po.html