III DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – 28/FEVERElRO/2016

a_SarcaArdenteS. TORCATO (séc. II). Missionário cristão que evangelizou Acci (actual Cadiz) na província de Granada, Andaluzia, e foi o seu primeiro bispo. A tradição católica sustenta que S. Torcato foi o primeiro dos sete varões apostólicos enviados para evangelizar a Península. Quando os mouros invadiram o sul da Hispânia queimavam as igrejas e as relíquias dos santos e, assim, os cristãos fugiam, tendo alguns levado o seu corpo queimado para Compostela. (Não confundir com S.Torcato Felix (693-734), bispo de Braga).

BTO. DANIEL BOTTIER (1876-1936). “Um tecto, pão, um ofício e muito amor”, era o que este padre Espiritano, director da “Obra dos Orfãos Aprendizes” d’Áuteuil, desejava dar aos jovens que recolhia. Beatificado em 1984.

Êxodo 3,1-8a.13-15; Sal 102,1-4. 6-8.11 ; 1 Coríntios 10,1-6.10-12; Lucas 13,1-9

QUANDO DEUS IRROMPE (Êx.3,1-8a.13-15). “Deus chamou-o”: por 3 vezes Moisés é assim interpelado. A primeira vez, na sarça ardente (Ex.3,4) ; a segunda na montanha do Sinai (Ex.19,3); por fim, na tenda da Reunião(Lev.1,1). O que significa que, ao contrário das divindades do Médio Oriente antigo, Deus não está ligado a um lugar. Ele dá-Se em toda a parte. Sendo assim, a sarça é muito rica simbólicamente. Ela assemelha-se à árvore da vida, tema tradicional na cultura judaica. Presença divina, que o fogo significa, e fecundidade que a sarça, a irromper no deserto “desolado” da condição humana, representa. Esta aparição, associada à palavra divina ouvida, revela Deus como O Deus da vida, O Deus libertador, o Deus que socorre na desgraça, Aquele que está “com” o Seu povo. Vale a pena meditarmos nesta liberdade dO Senhor que irrompe no quotidiano, independentemente dos lugares e das modalidades, até das que se reconhecem necessárias como a tenda da Reunião e a liturgia. Ou podemos rememorar os instantes em que a realidade “pegou fogo” – fogo da vida, do amor – e reler a nossa existência a essa luz para aí discernir as “passagens” de Deus. Mas podemos ainda redescobrir-nos interpelados, introduzidos numa relação em que os nomes se dão, repetindo à laia de oração O Nome de Deus: “Eu Sou”, “Pai Nosso”, “meu Senhor e meu Deus”. Sem esquecer de nos interrogarmos sobre o“consentimento” que lhE damos para a Sua obra de libertação das nossas vidas, por vezes tão atulhadas de coisas inúteis. A Quaresma é entendida como tempo de maior solidariedade com os irmãos e tempo mais espiritual que nos prepara para a Páscoa. Mas os textos deste domingo, levam-nos mais longe. O coração da Quaresma é a nossa conversão radical. Este Ano da Misericórdia insiste também nesta radicalidade, não unicamente sob a forma duma peregrinação ou com gestos simbó- simbólicos, mas voltando-nos completamente para Deus. Hoje, Ele dá-se a conhecer melhor: um Deus que chama, que conhece a miséria e sofrimentos do Seu povo ; Aquele que liberta interiormente. Deus é, e vive para nós e connosco. Cristo é a rocha de onde jorra a fonte da vida. E, após a saída do Egipto, todos partilhamos o mesmo alimento espiritual que é a eucaristia.

O CORAÇÃO DA QUARESMA (Lucas 13,1-9). Nos acidentes relatados a Jesus, este diz que as vítimmas não são culpadas de nada! Mas Jesus apela para que todos se convertam, e, na parábola do vinhateiro que tinha plantada na vinha uma figueira estéril, mostra-nos como Ele age com paciência… Pode dizer-se que a Quaresma é o tempo em que o trabalhador volta às suas terras para colocar estrume e escavá-las de novo. Mas é de nós que se trata. Somos convidados a deixar-nos renovar radicalmente pelas interpelações de Deus que está connosco e, pelo baptismo, em nós. Da mesma forma que Jesus enviou discípulos, deixemo-nos enviar ao mundo como testemunhas libertas, convertidas e portadoras da Boa-Nova da Páscoa, já subjacente.

Meditações Bíblicas”, tradução dos Irmãos Dominicanos da Abadia de Saint-Martin de Mondaye (Suplemento Panorama, Edição Bayard, Paris. Selecção e síntese: Jorge Perloiro.