QUINTA-FEIRA SANTA – 2/ABRIL/2015

a_LavaPesMissa vespertina da Ceia dO Senhor

Êxodo 12, 1-8.11-14 ; Sal 115,12-13.15-18 ; 1 Coríntos11, 23-26 ; João 13,1-15

A PASSAGEM DO SENHOR (Êx.12,1-8.11-14). Na Páscoa Judaica, aprendemos a discernir e viver todas as dimensões da Páscoa cristã. O sacrifício do cordeiro pascal que para os judeus fora a adaptação do sacrifício já existente nas religiões primitivas (para celebrar a renovação da primavera), significa hoje para nós o sacrifício, retomado e transfigurado pelO Senhor nas nossas eucaristias, por vezes com tão reduzida assistência, onde está presente o universo inteiro e a história universal. Por isso, assumamos a esperança de Israel na celebração das maravilhas dO Seu Deus e transfiguremo-la associando-a ao desejo de todos os homens por um mundo melhor. É-nos dado viver na fé a realidade nova de um Deus que nos cumula para lá dos nossos desejos, não num hipotético futuro, mas hoje, misturando-Se com a nossa carne e sangue. Tornados num só Corpo, com Ele e com todos os homens, no decurso das nossas vidas e mortes quotidianas, tudo vivemos numa Páscoa sem fim onde cada parcela do tempo é já abertura à eternidade dO Cristo ressuscitado.

A IGREJA ESTÁ FUNDADA EM CRlSTO-SERVO (João 13,1-15). Cristo é a primeira pedra de um amor que não tem fim. Dom livre e definitivo que nos abre um caminho de liberdade. Neste dia, deixemos Jesus aproximar-Se e ajoelhar-Se diante de nós. Permaneçamos num silêncio deslumbrado e entremos com Ele no movimento eucarístico que transfigura as nossas vidas. Será que as nossas eucaristias estão marcadas, pessoal e colectivamente, pela súplica por todos os homens que nós representamos e pelo júbilo interior da entrada na Terra prometida? “Que oferecerei eu aO Senhor por todos os bens que me tem concedido?”

Meditações Bíblicas”, tradução dos Irmãos Dominicanos da Abadia de Saint-Martin de Mondaye. Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

QUARTA-FEIRA – 1/ABRIL/2015

QuartaFeiraSantaIsaías 50, 4-9a ; Sal 68, 8-10, 21bcd-22. 31. 33-34 ; Mateus 26, 14-25

“NÃO DESVIEI O MEU ROSTO…” (lsaías.50,4-9a). Procuramos o rosto de Deus, a Sua face gloriosa.
E eis a resposta da Palavra divina, de uma ousadia escandalosa: O Servo não é a resposta de Deus
à questão do filósofo, é a resposta pessoal de Deus dirigida ao coração de cada homem. Inverosímil paradoxo : é por intermédio do rosto de um homem desfigurado, ridicularizado, sujeito aos insultos e escarros – um rosto sem rosto – que nos é revelada a face dO Deus vivo. Mas se Ele se sujeitou à traição e malícia dos homens, se foi totalmente desapossado de Si mesmo no sofrimento e na morte, foi porque é a escuta total da Palavra de Deus, da disponibilidade absoluta à Sua vontade e da pura relação filial com O Seu Pai. Entregando-Se assim, revelou-nos o último nível de profundidade do mistério do amor gratuito, e a glória d’Aquele que não podemos ver sem morrer. Revelou-nos assim o grau de desapropriação de nós mesmos, que temos de realizar e oferecer, para nos abrirmos à plenitude dO Mistério de Deus. Ensina-nos sobretudo, que Ele está infinitamente próximo e que podemos atingi-lO e fazer a experiência da Sua Presença sempre que surge, na nossa vida, um sofrimento, uma humilhação… Hoje, à luz do rosto desfigurado de Cristo, aprendamos a olhar e a amar todos os homens!

“EM CASA DUM CERTO…” (Mateus 26,14-25). Não será estranho que tratando-se de uma acção tão importante -instituição da Eucaristia, ponto de chegada da antiga Aliança e início da Nova- não será será de admirar que o evangelista omita o nome do proprietário da casa ? Pormenor sem importância, dir-se-á. Prefiro porém ver aqui um daqueles silêncios que dizem mais que os nomes e pormenores duma qualquer pessoa anónima, ou do que quaisquer indicações topográficas sobre a localização da casa ; prefiro ver algo que reforça e continua as palavras de Jesus à Samaritana : “Vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros crentes adorarão O Pai em espírito e verdade”. É em tua casa que Eu quero celebrar a Minha Páscoa com os Meus discípulos. Um anonimato que, no fundo, faz deste pedido o mais universal e pessoal que pode fazer-se a alguém. Não é em tal nº da rua, nem sequer na igreja do meu bairro, mas sim na-minha-casa… Na verdade, os próximos quatro dias: quinta, sexta e sábado santos e o domingo de Páscoa, nada significarão no calendário pregado na parede da minha casa ou na vitrine paroquial, se o verdadeiro santuário não for, em primeiro lugar, eu mesmo. Eu mesmo, e não apenas o tempo de algumas “cerimónias”, de algumas “celebrações”, pese embora roubadas aos meus tempos de trabalho ou de lazer. O que Eu quero é celebrar na tua casa – Eu em ti e tu em Mim – o sacrifício espiritual da reconciliação, da perfeita união restabelecida com O teu Pai e com cada um dos teus irmãos, como se não haja outro cenáculo na Igreja.

“Meditações Bíblicas”, tradução dos Irmãos Dominicanos da Abadia de Saint-Martin de Mondaye. Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

TERÇA-FEIRA – 31/MARÇO/2015

ComunhaoDosApostolosIsaías 49, 1-6 ; Sal 70, 1-6ab. 15. 17 ; João 13, 21-33. 36-38

“FILHINHOS…” (Jo.13,21-33). Deixemo-nos tocar sem vergonha pelo carácter tão humano e pungente da cena.
São os últimos momentos de Jesus com os Seus. Todos sabem que Ele está em perigo e que tem medo.
Dois episódios são reveladores : uma traição – assunto de dinheiro – e também de segurança ; e uma negação.
Aqueles homens fracos à volta de Jesus, são como crianças em expectativa ansiosa que Jesus aumenta ao
anunciar a Sua partida definitiva. E, todavia, é neste momento de angústia que Jesus – também perturbado – diz
palavras duma solenidade intensa: “Agora O Filho do homem vai ser glorificado e Deus será glorificado n’Ele”
O gesto de Jesus, a dar o pedaço de pão a Judas, é ambíguo e poderia honrar um conviva. Pode dizer-se que Jesus entrega Judas ao poder do mal e Satanás entra nele. Mas, para o evangelista, o combate que se inicia ultrapassa a pessoa de Judas : é Jesus que irá lutar com o príncipe das trevas. Os acontecimentos desoladores, cuja ameaça está tão próxima e contêm em si uma tão grande verdade
humana, são também um mistério de Glória. A transfiguração está, no íntimo, no coração da desfiguração. Agora, após a morte de Jesus sabemos que todo o drama humano se reveste deste carácter misterioso, capaz de vencer os mais legítimos desesperos. Que O Espírito Santo me faça aproximar da Paixão de Cristo com o coração aberto e uma fé viva!

“Meditações Bíblicas”, tradução dos Irmãos Dominicanos da Abadia de Saint-Martin de Mondaye. Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

SEGUNDA-FEIRA – 30/MARÇO/2015

MariaUngeComPerfumeOsPesDeJesusIsaías 42, 1-7 ; Sal 26, 1-3. 13-14 ; João 12, 1-11

A ALEGRlA DO SENHOR (Isaías 42,1-7 ). Os cânticos do servo dO Senhor (lsaías 42, 49, 50, 52 e 53) acompanham os três primeiros dias da Semana Santa e a solene primeira leitura de Sexta-feira Santa. É reconfortante, nesta Segunda-feira Santa, ouvir Deus a dizer que pôs “toda a Sua alegria” no Seu servo que “proclamará o direito e a verdade”. Durante esta semana de maquinações, de traição máxima, de cobardia definitiva, é neces-sário recordar o que Cristo diz aos Apóstolos na noite da a Ceia: “Vós ides chorar (…) mas a vossa tristeza converter-se-á em alegria (…) e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria.” (Jo.16,20.22). Jesus vai morrer e, todavia, Ele tem alegria porque ela tanscende já a morte.

UM PERFUME CARO, DE NARDO PURO (Jo.12,1- 11). A cena mostra-nos 3 amigos de Jesus: Marta, a mulher prática, a quem nada (salvo talvez a ressurreição do irmão) impede fazer bons cozinhados; Lázaro, ressuscitado e cheio de apetite; e Maria, a mística, a única a ter entendido o significado profundo da ressurreição do seu irmão: “Jesus é a Ressurreição e a Vida, quem acreditar n’Ele viverá”. Teria ela guardado este perfume para os dias de perseguição que há muito se anunciavam, na eventualidade de Jesus morrer? Seja como for, ela hoje sabe que este perfume não será derramado sobre um cadáver, pois -em todas as circunstâncias- Jesus é a Vida. Ele é O ungido dO Senhor e O Espírito de Deus está n’Ele; os melhores perfumes não são dignos de ser derramados n’Ele. Nestes dias que precedem imediatamente as festas pascais, Maria de Betânia convida-nos ao entendimento espiritual dos mistérios cuja celebração preparamos. Vamos comemorar o destino de quem O Pai ungiu e enviou; a morte e ressurreição deste Filho resumem tudo o que Deus quer dizer ao nosso mundo. Na verdade, este é o momento da chamada final de atenção, do dom total, da firmeza e da ternura de Deus. Que Maria de Betânia nos prepare para isso!

Meditações Bíblicas”, tradução dos Irmãos Dominicanos da Abadia de Saint-Martin de Mondaye. Selecção e síntese: Jorge Perloiro.