A FAMÍLIA É UM DOGMA
Amanhã [dia 20 de Fevereiro, nota do tradutor] abre-se o consistório extraordinário sobre a família, primeira etapa em direcção ao Sínodo extraordinário de Outubro. Dois dias de reuniões entre o Papa e os Cardeais presentes em Roma, com a conferência introdutória confiada ao Cardeal Walter Kasper, teólogo e presidente emérito do Pontifício conselho para a promoção da Unidade dos cristãos. Na véspera deste evento, o Foglio entrevistou o Padre João José Perez Soba, professor ordinário de teologia pastoral no Pontifício Instituto João Paulo II para os estudos sobre o matrimónio e a família na Universidade Lateranense.
Algumas conferências episcopais europeias divulgaram os relatórios sobre as respostas ao questionário sobre a família e o matrimónio enviado às dioceses no passado mês de novembro, em vista do sínodo do próximo mês de Outubro. A partir dos primeiros dados emerge uma clara distância entre o ensinamento da Igreja Católica e a práxis seguida pelos fiéis acerca da pastoral familiar. A seu juízo, é necessária uma actualização da Familiaris Consortio do Papa João Paulo II ou o texto permanece ainda central?
João José Perez Soba. «Devemos ter um olhar amplo. É uma questão cultural. Devemos ver as coisas em série, como três etapas. O concilio Vaticano II é a primeira destas etapas, é o acontecimento que considerou a família como grande realidade da actualidade. Imediatamente depois do Concílio, deu-se a grande revolução sexual dos anos Sessenta e este é o fenómeno cultural de que devemos estar conscientes. A segunda etapa é a Familiaris Consortio, que deve ser considerada não somente como uma simples resposta aos problemas, mas também como obra de evangelização. Não devemos, de facto apenas responder aos problemas que se multiplicam, mas devemos fazer da família um evangelho. Esta é a Familiaris Consortio. O problema é que em tantas coisas este texto não foi acolhido: por exemlo, ele recomenda a criação de directores de pastoral familiar. Mas só Espanha e Itália actuaram este pedido. As conferências episcopais que mais falam em vista do Sínodo não fizeram nada no sentido da pastoral global. Concentraram-se somente na resolução de problemas técnicos, não com a proclamação do Evangelho. A Igreja não tem, hoje, uma pastoral familiar própria. E isto é incrível. Fazer uma crítica à Familiaris Consortio neste sentido é ver as coisas simplesmente como problemas aos quais dar resposta. É uma visão em que a Igreja vai atrás do mundo. O mundo vai e a Igreja está sempre atrás. Mas não pode ser esta a posição da Igreja. Ela é luz do mundo! Deve propor algo que salve o mundo. E esta proposta é exactamente contida na Familiaris Consortio. A terceira etapa é a Caritas in Veritate de Bento XVI. A grande mudança cultural depois do documento de João Paulo II, de facto, é a ideologia de género. Não tanto como realidade, porque já estava presente na revolução sexual dos anos Sessenta (a sexualidade é coisa meramente biológica). O problema é que a ideiologia de género se tornou um tema político. Também o próprio chegar ao coração da família como tal parece absolutamente relativizado. Estamos perande um novo desafio a nível político e social. A Caritas in Veritate diz-nos que o amor é verdadeiramente a solução par a sociedade. Fala-se sempre de amor, mas ele na política não se vê nunca, nem na economia. O amor não é verdadeiramente aquilo que constitui a realidade social, mas simplesmente como algo pequeno, que serve para as pessoas estarem satisfeitas. Pelo contrário, como diz a encíclica de Joseph Ratzinger, o amor é a realidade maior da vida. A família é novamente apresentada como o modelo fundamental da realidade social. Somente assim a Igreja tem a consciência da sua missão, que é o Evangelho da Família. Não os problemas, que se multiplicam sempre. Algumas conferências episcopais pensam que se se muda uma norma, o problema deixa de existir. Mas isto é absolutamente falso. O problema verdadeiro é o de uma pessoa que não é capaz de fazer com que o amor seja o fundamento da sua vida. Este é o problema. E não se resolve com uma norma. Resolve-se com o Evangelho. A Familiaris Consortio é, portanto, profética, diz que o futuro da humanidade depende da família. E esta convocação para o Sínodo que o papa Francisco fez coloca como primeira referência exactamente o Evangelho: não se deve chegar tanto à resolução de um problema, mas repropor o tema da centralidade da família».
O que nos pode dizer acerca das vozes cada vez mais fortes – provenientes em particular do episcopado alemão – que colocam em discussão a doutrina da Humanane Vitae?
Perez Soba. «O que dizia a Humanae Vitae, aconteceu. Podemos ver o que acontece quando não se toma a Humanae Vitae como algo sério, banaliza-se o sexo. Vejamos o que aconteceu onde a Humanae Vitae foi rejeitada, onde se diz “não a recebemos”. Hoje estamos conscientes da consequência de não se ter visto na encíclica de Paulo VI um aviso profético. Notam-no também e sobretudo muitos observadores não cristãos, como Badiou em França, Bauman em Inglaterra, e o coreano Byung-Chul Han na Alemanha.»
De várias frentes de entrevê que no Sínodo estará em jogo exactamente o conceito de família. Este cenário comportaria riscos?
Perez Soba. «No sínodo está em jogo a família. O que pensamos sobre o que é a família? O que pensamos que Deus tenha dito sobre o que é a família? É um pouco como Jesus dizia. quando perguntava o que é que as pessoas diziam que Ele era. Mas o que diziam os apóstolos dele? Isto era essencial. A tal propósito, são interessantes as palavras de Bento XVI em conclusão do Sínodo sobre a nova evangelização em 2012. Naquela sede, o conceito de família recorreu frequentemente. O Papa hoje emérito disse então que havia uma grande relação entre fé e família. Onde existe família, existe fé. Onde não há família, também a fé não está presente. Assim o demonstram os estudo sociológicos de Maria Eberstadt. Não podemos ver o amor como uma série de dados objectivos para além dos quais não compreendemos nada. O desejo dos homens é a família, é um dado sociológico absoluto. A família entendida como ligação entre pai, mãe e filhos é o valor máximo da nossa sociedade. Família autêntica, não outros modelos. A nossa é uma sociedade ideológica, uma cultura ideológica, que se comporta como inquisidor que não permite que este desejo real das pessoas seja público. A Igreja não pode cair nesta armadilha. É claro que uma Igreja que se sente frágil tem necessidade de se aproximar das pessoas, mas não sabe como. Esta Igreja pode cair nesta tentação, dizendo “nós falamos como toda a gente e assim ficamos mais próximos”. Quando a Igreja não diz algo de novo, a Igreja perdeu a força da sua missão. Isto é claríssimo na experiência pastoral directa».
Seria portanto um erro cair na tentação de adequar-se ao espírito dos tempos como fazem entrever algumas conferências episcopais europeias na sequência da publicação dos resultados do Questionário sobre o sínodo enviado às dioceses?
Perez Soba. «Em dois mil anos, podem determinar-se pelo menos cinco revoluções sexuais. Tomemos uma das primeiras revoluções sexuais, a do Século XII, o amor cortês. O que é que a Igreja fez perante isso? Respondeu com uma nova proposta cultural, sobretudo com São Bernardo, que mudou a devoção a Maria. Maria, no gótico, representa um afecto. Torna-se a guia. Já não um ícone como na idade românica. A Igreja responde com uma verdade. A Igreja não deve adaptar-se aos tempos, deve fazer a sua proposta, conhecendo os tempos. O que encontra nos tempos é o desafio de uma realidade que permite cada vez mais aprofundar o Evangelho. A verdade do Evangelho, não os factos exteriores do mundo. Isto é essencial. Olhar para o coração das pessoas, não para os dados sociológicos. O problema é o de uma mentalidade técnica, onde se quer resolver os problemas como por magia. Sem olhar para a pessoa.»
Não há o risco de banalizar o conceito de misericórdia, termo tão usado e por vezes abusado?
Perez Soba. «Diz-se que tudo é amor, que tudo é misericórdia. Não. Misericórdia é um tipo de amor muito preciso. É necessário distinguir bem as coisas. Misericórdia não é tolerância nem só compaixão. São dois termos que devemos distinguir sempre. Um é tolerância com o mal, e isto não é misericórdia. Creio que fomos nós os padres a fazer o primeiro abuso, nisto. Nos funerais usamos a misericórdia para cobrir tudo, para fazer a todos santos. A misericórdia é aquilo que cura o mal, não o que o tolera, como se não fosse importante. Onde há misericórdia já não se encontra o mal. A tolerância é uma falsa misericórida, aquela que diz “não é importante” aquela ferida. Parece-me que a visão de Francisco vá neste sentido, quando fala de curar as feridas. A misericórdia é um amor que gera vida. Este é um conceito muito distante da tolerância burguesa.»
© – FOGLIO QUOTIDIANO
di Matteo Matzuzzi – @matteomatzuzzi