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QUARTA-FEIRA – 17/SETEMBRO/2014

SaoRobertoBelarminoS. ROBERTO BELLARMINO (1542-1621). Jesuíta da Toscana. Pela sua palavra e pela escrita, dedicou-se a refutar ponto por ponto as afirmações dos reformadores numa defesa esclarecida da ortodoxia católica que fez a Igreja proclamá-lo Doutor.

1 Coríntios 12, 31–13,13 ; Sal 32, 2-5.12. 22 ; Lucas 7, 31-35

“MOVER MONTANHAS…”(1Cor.12,31–13,13). Paulo tinha certamente escutado os relatos relativos à frase de Jesus sobre a fé que move montanhas (Mat.17,20). Retomá-la-á ele aqui com algum humor? É certo que ele responde com firmeza aos Coríntios que comparavam entre si as qualidades e os dons, pretendendo cada um sobrepôr-se aos outros: os dons dO Espírito são múltiplos, e não podem ser reservados nem hierarquizados! Afinal, a fé também é um dom: uns são mais dotado para ter confiança sem se inqui-etar, outros, mais angustiados, são atingidos pela dúvida. Mas uma só coisa importa: O amor – agapè – que os faz viver em conjunto, os faz aceitar as diferenças, e colocarem-se ao serviço uns dos outros, no acolhimento, cuidado e perdão recíprocos.

“Meditacões Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort  (Supl. Panorama,  Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

TERÇA-FEIRA – 16/SETEMBRO/2014

S. CIPRIANO DE CARTAGO (210-258). “Fora da Igreja, não há salvação”:  este célebre adágio deve-se a S.Cipriano. Nascido na África do Norte no seio de uma família pagã, Cipriano teve uma vida fácil e dissoluta, antes de se converter aos 35 anos. Pouco depois foi ordenado e eleito bispo de Cartago. Fez da unidade da Igreja o seu principal cavalo de batatalha pois sabia conciliar a exigência e a compaixão.  Quando da perseguição de Décio em 250 muitos cristãos renegaram a sua fé, para escaparem à morte. Com o regresso da paz levantou-se a questão do destino a dar no seio da Igreja a esses “lapsi” (apóstatas).  Enquanto uns, por espírito de misericórdia,  queriam admiti-los de novo na comunhão e na eucaristia, outros, mais rigoristas, pretendiam bani-los da Igreja. O bispo Cipriano encontrou uma via intermédia, um ponto de equilíbrio entre as duas atitudes extremas : aceitou acolher os “lapsi”, na condição de eles praticarem uma penitência real “nas lágrimas, na oração, no jejum e na esmola”. Na mesma época, a desorganização das comunidades e a desordem dos espíritos nascidas das perseguições levou alguns sacerdotes a pregarem doutrinas cismáticas. Cipriano lutou sem descanso contra os que queriam fazer mal à unidade da Igreja. Ele próprio, ainda que em desacordo profundo com o papa Estevão sobre a validade do baptismo dos heréticos, nunca rompeu com Roma, por estar convencido que “Aquele que não respeita a unidade da Igreja, também não respeita nem a lei de Deus, nem a fé nO Pai e nO Filho”. Em 258, numa nova perseguição, Cipriano foi preso, e ao recusar sacrificar aos ídolos foi decapitado no mesmo dia. Visto como o 1º Doutor latino da Igreja, Cipriano de Cartago (actual Tunísia) deixou importante obra escrita. Os seus tratados de moral cristã e, em especial, o seu comentário do Padre Nosso, ainda hoje podem ser lidos com grande proveito.

1 Coríntios 12, 12-14. 27-31a ; Sal 99, 2-5 ; Lucas 7, 11-17

PEDIR PRIMEIRO O AMOR (1 Cor.12-14.27,31a). O convite a procurar os melhores dons precede o “hino à caridade” (1Cor.13). Paulo põe assim em evidência que o dom a pedir prioritariamente é o amor – um fruto dO Espírito.  E isto, quando o que está em questão é construir a unidade da comunidade cristã no respeito da diversidade de dons de cada um. De facto, o amor é fonte dum outro olhar sobre o próximo, que anula não só a inveja mas também o sistema de valores mundanos que dividem (esravos/homens livres, ricos/pobres, homens/mulheres, instruidos/incultos). Uma mensagem que tem toda a actualidade !

RessurreicaoDoFilhoDaViuvaDeNaim_Minniti“JOVEM, EU TE ORDENO, LEVANTA-TE!” (1 Cor.12-14.27,31a). Estas palavras pertencem ao grupo das curas milagosas cujo relato costumamos ler.  Mas, coisa espantosa, o jovem a quem Jesus fala é na realidade um defunto.  E eis que Jesus lhe dirige a palavra como se ele estivesse vivo! Para Jesus, este jovem não estava na verdade morto.  A morte não tem a última palavra : ao retituir-lhe a vida, Jesus devolve-lhe a palavra e devolve-o à mãe. Trata-se de um único e mesmo movimento.  Este relato recorda-nos que toda a vida é pascal, feita de passagens da morte à vida, e que ela surge onde menos a esperávamos. Ela é uma potência frágil, com frequência escondida e subterrânea, e todavia bem presente.  Que O Espírito nos abra os olhos para a ver, a acolher e a viver !

“Meditacões Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort  (Supl. Panorama,  Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

SEGUNDA-FEIRA – 15/SETEMBRO/2014

BTO. ROLANDO DE MÉDICIS (1330-1386).  Viveu vinte seis anos como eremita numa floresta perto de Parma, entregando-se inteiramente à contemplação, em linha directa com os Padres do deserto.

NOSSA SENHORA DAS DORES  O pensamento de Maria aos pés da Cruz tem ajudado muito os cristãos de todos os tempos a encontrarem um sentido para os sofrimentos.

Hebreus 5, 7-9 ; Sal 30, 2-6. 14-16. 20 ; João19, 25-27 ou Lucas 2, 33-35

“ELE SUBMETEU-SE EM TUDO…” (Heb.5,7-9). O texto da Carta aos Hebreus evoca o relato do Getsémani: angústia e súplica de Jesus perante a morte terrível que O espera.  Ora, diz-nos o autor, Jesus foi salvo da morte ; para lá do visível, o Seu pedido foi atendido por Deus “porque Ele Se submeteu em tudo”. O texto grego aqui interpretado é um pouco diferente; fica melhor traduzido “por causa da Sua piedade”. A palavra utilizada, da  cultura greco-romana, designa um respeito profundo , um justo distanciamento observado face à divindade. Ela representa um tipo de relação em que cada um reconhece plenamente o lugar e a decisão do outro.  A permuta entre Jesus e O Pai leva ao extremo a atenção mútua, num laço tão forte que atravessa a morte.

A COMPAIXÃO,CRITÉRIO DO AMOR AUTÊNTICO  (Jo.19,25-27). Talvez nos sintamos incomodados nesta festa, porque desconfiamos de qualquer exaltação do sofrimento.  Procuremos então decifrar o que ela nos dá para meditação. Assim, a correcta compreensão do sofrimento humano – o de Cristo e o de Sua mãe – interpela o mundo ocidental com a sua propensão para o esconder ou o realçar. Quanto á dimensão da compaixão, que consiste sofrer com o outro, acompanhamo-lo no seu caminho de dor, ela é-nos apresentada como critério do amor autentico: de Maria pelo Seu Filho e pelos membros do seu Corpo de que Ele é a cabeça.

NossaSenhoraDasDores_Tretyakov“MULHER, EIS O TEU FILHO…”  (João 19,25-27).  Em algumas palavras simples realiza-se um acontecimento inaudito : Maria, a Mãe de Deus, torna-se a Mãe da Igreja.  Com O Senhor da Vida crucificado, entramos num mistério duma vida maior do que a maternidade humana. Maria está ali em compaixão com O seu Filho, “só no maior sofrimento”, e então que cumpre-se a abertura sobre o infinito do mistério de Deus. A Páscoa já está ali! Nunca esqueçamos que com Cristo a morte foi aniquilada de uma vez por todas, e que a Ressurreição teve lugar.  Quando formos, com a humanidade, mergulhados no mistério da dor, deixemo-nos penetrar pela certeza de que a vida é vitoriosa. A Mãe dO Crucificado, a Mãe dO Ressuscitado, a nossa Mãe, ensinar-no-lo-à pouco a pouco.

“Meditacões Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort  (Supl. Panorama,  Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

DOMINGO DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ – 14/SETEMBRO/2014

Números 21,4b-9 ; Sal 77,1-2. 34-38 ; Filipenses 2, 6-11 ; João 3,13-17

SalveCruzGloriosaLeitoDoMeuRedentorA CRUZ, CAMINHO DE VIDA. “Aquele que foi crucificado na carne, Nosso Senhor Jesus Cristo, é verdadeiro Deus, Senhor da glória e Um da Santa Trindade”(2º Concílio de Constantinopla, junho 553). Sentimos vertigens perante semelhante afirmação! Um da Santa Trindade foi crucificado na carne. “Porque Deus amou tanto o mundo que lhe deu O Seu Filho Único”. Sobre a Cruz joga-se de forma definitiva o dom do amor. O acontecimento da morte de Jesus faz passar a cruz, instrumento de suplício, ao estatuto de Cruz, instrumento de salvação de todos os homens. Este acontecimento impõe-se à reflexão e precede-a:“Eles hão-de olhar Aquele que trespassaram”. Por Jesus Se ter entregue nela absolutamente ao amor dO Pai, Único a poder fazê-lO viver, a Cruz tornou-se a porta do Céu.  Da acção da morte, em que o homem tantas vezes é cúmplice, Deus faz jorrar, por Cristo e n’Ele, uma vida mais forte que morte.  Por isso, o caminho que Cristo seguiu tor-nou-se caminho da vida para o homem pecador. A Cruz fala ao mesmo tempo do amor extremo, com que Deus ama os homens – “Não existe maior amor do que dar a própria vida por aqueles que se amam” – e do amor de oferenda, em que o homem pode amar a Deus e ao seu irmão. S. Paulo podia então exclamar : “A linguagem da Cruz, de facto, é loucura para os que se perdem, mas para os que se salvam, para nós, ela é potência de Deus”.  Cada um de nós pode dizer com ele: “Para mim, que nunca me glorio senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, que fez do mundo um crucificado para mim, e de mim um crucificado para o mundo”. Cristo é a vinha. Ábside da Basílica de S.Clemente em Roma,  próxima do Coliseu, está ornada com um magnífico mosaico do séc.XII. A imagem alia a  qualidade artística à densidade teológica. Sobre o fundo dourado da ábside, a cruz cria uma abertura que liga a Terra às esferas celestes. Jesus está morto na cruz mas permanece numa atitude de oferenda.  A aceitação da Sua vida, entregue por Si, está significada pela mão dO Pai que lhE estende a corôa da vitória : Aquele que “se esvaziou de Si mesmo, tomando a condição de servo”, “Deus O exaltou” (Filipenses 2,6-11). A árvore da morte tornou-se árvore da vida. Da cruz nasce uma fonte impetuosa donde saiem quatro rios onde os veados vêm beber.  Na sua base cresce uma imensa vinha cujas inúmeras vergônteas cobrem o espaço. Os frutos são múlitplos, mas a imagem convida-nos a não esquecer a sua origem: “Eu sou a vinha, e vós, os sarmentos. Aquele que permanece em Mim e em quem Eu permaneço, esse dará muito fruto, porque fora de Mim nada podeis fazer” (João15, 5).

“DEUS AMOU TANTO O MUNDO…” (Jo.3,13-17). Jesus explica a “descida do céu/subida ao céu” dO Filho do homem.  Duas razões são apresentadas: o amor imenso de Deus pelo mundo e o envio dO Filho de Deus a este mundo, ligadas entre si. É por Deus amar tanto o mundo que lhe enviou O Seu filho.  O objectivo último do que aqui é dito é“a vida eterna” do crente nO Filho único de Deus e “a salvação do mundo”. A morte (“perecer”) opõe-se à vida eterna, e o “julgamento” à salvação.   O Filho do homem, que desceu do céu, é O único a ser elevado ao céu. A Sua necessária elevação recorda a elevação da serpente de bonze por Moisés no deserto. Esta elevação tem como consequência o dom da vida eterna a todo o homem que acreditar n’Aquele que foi elevado. Se Nicodemos, no relato, tem dificuldade em entender, os cristãos depois da Páscoa reencontram no evangelho de João este cate-cismo.  O Ressuscitado é reconhecido como correspondendo às figuras dO “Filho do homem” e dos “filhos de Deus” das Escrituras. A elevação evoca a da Cruz;  ela significa a exaltação de Jesus junto dO Pai celeste.  A meditação das Escrituras permite apreender o imenso amor de Deus pela humanidade. A vinda de Jesus para o meio de nós é bem representativa desta revelação do amor de Deus ; mais ainda, para os cristãos ela coroa esse amor infinito que as Escrituras mostram.  “Crer” é a palavra chave do evangelho de João. Crer em Jesus, é reconhecê-lO como O enviado de Deus, que cumpre as Escrituras, que nos mete pela Sua elevaçâo na vida eterna. João recorda-nos que Jesus tinha plena consciênia da Sua intimidade com Deus Pai e que Ele deu a Sua vida até a fim por fidelidade.

“Meditacões Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort  (Supl. Panorama,  Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.