Actos 2, 36-41 ; Sal 32, 4-5.18-20. 22 ; João 20,11-18
Recentemente acordado do sono da morte, Jesus passeia-se no jardim, à procura de amigos tal como Deus na aurora da Criação. Mesmo antes que Madalena se metesse a caminho, já O Res-suscitado esperava a sua vinda. Duas palavras bastam para se entrar em sintonia no mistério dos seus reencontros: “Maria !”, “Rabbuni !” É agora a vez de escutarmos O Vivente da Páscoa chamar pelo nosso nome, convidando-nos a responder-lhE com uma palavra de amor, uma pala-vra que nos institua testemunhas da Sua Ressurreição. Cada um de nós, cada uma das nossas comunidades ou de pequenos grupos é hoje uma avenida : Cristo Senhor que Se nos apresenta na Sua Glória de Ressuscitado há-de passar para outros homens se confessarmos o nosso pecado e o Seu Nome de Glória. Tentemos olhar concretamente hoje por onde O Senhor vem e em que direcção Ele vai e dêmos-lhE passagem. “Toda a terra, Senhor, está cheia do Teu Amor !”
Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard, Paris).
“…NÓS SOMOS TESTEMUNHAS”. Esta frase é simultâneamente a mais antiga e a mais nova do cristianismo. Nela concentra-se o essencial da primeira prégação apostólica : desde que os Apóstolos tiveram a convicção arreigada que esse Jesus com quem tinham vivido estava vivo para além da morte, eles sentiram-se invencivelmente impelidos a proclamarem-nO: em Jesus, Deus agiu duma forma única e definitiva, colocando um selo de veracidade no ensino dO Nazareno e, mais profundamente, revelada pela Sua condição de Filho. Após o anúncio inicial, a meditação da Igreja nunca deixou de voltar a este Mistério primordial para descobrir os seus aspectos e riquezas. Mesmo hoje, que traz o cristianismo ao mundo, que posso eu, cristão, dizer de único, senão que, pela Sua ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo está vivo? Mas como anunciar este Mistério se não O acreditar firmemente ? Hoje é talvez o dia de nos interrogarmos : bem no fundo, na minha consciência, no meu sistema de valores, na minha interpretação da vida e dos acontecimentos, qual é o papel do grito do cristianismo “Cristo está ressuscitado !”
À GLÓRIA DO PAI. Como é bela a saudação pascal dirigida pelO Senhor às mulheres que se afastam do Seu túmulo ! Saudação que é o prelúdio dum encontro inesperado. O supliciado, morto no madeiro da Cruz, aparece resplandecente com um brilho indizivel. A Sua carne entoa um cântico novo : “O meu coração alegra-se e a minha alma exulta (…). Tu não me entregarás à morte (…) Tu ensinar-me-ás o caminho da vida” (Salmo 15, 5. 8-11). Com Ele, cada um dos que acolhem a Boa Nova de uma vida mais forte que a morte pode cantar este hino à glória dO Pai. Não tenhamos medo, Cristo ressuscitou verdadeiramente. Não era possivel que a morte O retivesse. Cristo sai deste mundo como “vencedor”. Jesus é O único verdadeiro vencedor, porque Sua vitória sobre a morte é também a vitória de todos nós. A vitória do Ressuscitado na manhã da Páscoa está desde então escondida, mas, como uma semente, continua bem viva por toda a parte, mesmo nos nossos defeitos : os com que fazemos sofrer os outros, e aqueles, dos outros, que nos fazem sofrer.
Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard, Paris).
DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – 20/ABRIL/2014
Em directo, 9h15: Missa de Páscoa
Em directo, 11h: Bênção Urbi et Orbi
Actos 10, 34a. 37- 43 ; Sal 117,1-2.16-17. 22-23 ; Col.3, 1-4 (ou 1Col.5, 6b-8) ; João 20,1-9
“VÓS SABElS O QUE SE PASSOU…” Cristo ressuscitou, Aleluia! Sim, na verdade Ele ressuscitou! Pedro, ao dirigir-se ao centurião romano Cornélio, recorda em primeiro lugar o que todos podiam saber: a história de Jesus da Nazaré desde os seus começos na Galileia até à deposição no túmulo. A seguir anuncia-lhe o que apenas ele e mais alguns outros tinham testemunhado : esse Jesus fora ressuscitado por Deus que O fizera Senhor e Juiz dos vivos e dos mortos. Eis o que de facto sucedeu noutro tempo e lugar. Todavia, se o grito pascal “Cristo ressuscitou! Sim, Ele ressuscitou de verdade !” continua a soltar-se hoje dos nossos lábios e a encher-nos o coração, é por esse acontecimento estar vivo, como semente que deseja frutificar na nossa vida. “Vós ressuscitastes com Cristo” diz-nos S.Paulo. Tudo o que O Apóstolo escreveu pode resumir-se assim: “Continuai a ressuscitar com Ele, aqui, agora e sempre”. “Vós sabeis o que se passou: Cristo ressuscitou !”. Sim, nós sabemo-lo, mas tão pouco e tão superficialmente! Trata-se dum mistério insondável por ser também o mistério dO Amor de Deus. Há 2 patamares de conhecimento que teremos de ultrapassar permanentemente porque quem pretender saber tudo bloqueará o germinar da semente pascal na sua vida e será causa de sofrimento para toda a Igreja. Cristo está ressuscitado ; na verdade Ele ressuscitou! Não sabemos ainda o sentido completo da ressurreição e uma das lições das leituras da liturgia da Palavra será : ficar abertos e sensíveis à aprendizagem ; deixar que O Espírito Santo nos ensine, até ao conhecimento perfeito, até ao cântico de aleluia que cantaremos eternamente no céu.
VER, COMPREENDER E ACREDITAR (Jo. 20,1-9). O sudário continuava no lugar, aplanado. Ninguém lhe tocara, mas o corpo já não está ali. Como se tivesse saído de dentro. João, o discípulo que Jesus amava, avista as roupas. Pedro contempla-as. Mas nada faz sentido. Quem podia ter tido a ideia de carregar um corpo nu e repôr todos os panos no lugar ? E porquê ? Imediatamente, ao entrar tam-bém, João “vê” o invisivel. Ele “vê”, como quando se diz: “Eu vejo o que tu queres dizer”. Ou seja, ele compreende. Ele compreende a realidade daquilo que Jesus tinha anunciado. Ele agora vê que “era necessário que Jesus ressuscitasse dos mortos”. Mas há ali um facto em bruto que se impõe: o túmulo aberto, com tudo no lugar como na Sexta-Feira Santa à noite, todavia o corpo de Jesus foi-se… Falta compreender e interpretar os indícios. A fé no anúncio que Jesus ressuscitou permite essa interpretação. O encontro dO Ressuscitado virá confirmar ser bom ter tido fé e virá suscitá-la. Na tarde da Páscoa, O Senhor fará uma longa catequese aos discípulos de Emaús, abrindo-lhes o espírito ao entendimento das Escrituras.
E ensinar-lhes-á a retomarem o gesto surpreendente de Quinta-Feira Santa: a antecipação da Sua vinda em glória e realização da Sua presença. A Eucaristia celebrada na fé irá manter em Si, até ao regresso dO Senhor, a manifestação perene dO Ressuscitado. Ela cola-nos à oferenda que Jesus fez da Sua vida. Comungando O Ressuscitado, morremos em nós mesmos para amar. Como Ele!
Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard,Paris)
CRISTO DESCEU AOS INFERNOS. Este é um mistério de extrema importância da nossa fé que devemos hoje meditar. Iluminam-no as palavras do próprio Jesus : Ele fala da Sua descida “ao seio da terra”. Está aqui muito mais do que uma imagem. Trata-se da descida de Cristo -O Verbo criador e salvador – ao centro mesmo do Universo, a esse ponto imóvel, para lá do espaço e do tempo, onde tudo o que existe eternamente no pensamento de Deus se torna realidade. Ao entrar na morte, Cristo penetrou até à raíz mais profunda da criação para aí depositar a semente da Vida, pronta a desabrochar pela Sua ressurreição. De tal sorte que já não há um átomo do universo e da vida dos homens, que, para além da morte, não seja chamado a ser transfigurado na Glória dO Deus vivo. Ele está aí, Cristo morto e ressuscitado, em nós, em torno de nós, dando sentido às nossas existências que são um diálogo inces-sante entre a vida e a morte. Não se trata da visão dum espírito, mas da misteriosa realidade em que entraremos inevitavelmente no dia da nossa morte, e onde temos de penetrar livre e progressivamente, descendo- pela fé e pela oração-“no túmulo do nosso coração”, para aí decobrirmos Aquele que vive eternamente na Glória dO Pai e nos atrai misteriosamente a Si. “Vem, Senhor Jesus !”.
VIGÍLIA PASCAL.Uma incrível notícia irrompe na grande madrugada, trazida por Maria Madalena: Cristo ressuscitou, está vivo, ela viu-O! Na noite de Vigília pascal, nós acolhemos esta centelha: “Ide por todo o mundo. Proclamai a Boa Nova !” Esta noite não estamos sós, reunimo-nos com os que receberam essa faúlha para fazer um braseiro comum. A vocação do fogo pascal é abrasar “toda a criação”. O tempo da ressurreição está a caminho. A partir de agora, é-nos impossivel dizer que não vimos e ouvimos. Como Maria Madalena com sua humildade, e como Pedro e João com a sua certeza, partilhemos a notícia da ressurreição de Jesus. Aleluia, Aleluia !
Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard, Paris).
Deverá estar ligado para publicar um comentário.