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DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR – 13/ABRIL/2014

DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR – 13/ABRIL/2014

Isaías 50, 4-7 ; Sal 21. 8-9.17-18a.19-20. 23-24 ; Filipenses 2, 6-11 ; Mateus 26,14–27, 66

EntradaDeCristoEmJerusalem_FlanarinUMA MULTIDÃO NUMEROSA.  As leituras deste domingo de Ramos que inicia a Semana Santa, a grande semana cristã, evocam todas uma singular caminhada de Cristo com a multidão, símbolo da humanidade inteira, acompanhando-O na Sua aventura humana com a qual a nossa está indissoluvelmente ligada. Jesus faz uma entrada em Jerusalém, simultâneamente triunfal e humilde, semelhante à Sua entrada neste mundo ; a pequena jumenta, diferente dos cavalos de combate, é disso sinal. Mas haverá aos olhos de Deus outros triunfos que não sejam fruto da humildade? “Não tenhas medo deste rei, a Sua humildade é a tua segurança e a tua felicidade”. Depois passa-se deste texto triunfal, sem triunfalismo, à leitura da Paixão.  É a mesma caminhada que prossegue pelas ruas da cidade de Jerusalém como através do tempo dos homens. A humildade deu mais um passo, pois a jumenta foi enviada de volta, e Cristo con-tinua o Seu caminho a pé.  Mas depressa, como para significar que Ele não caminha na terra na ponta dos pés, e que a terra deve ficar marcada pelas Suas pégadas para sempre, Ele carregará a Cruz cujo peso contribuirá para agravar mais o Seu sofrimento moral. Mas vejamos ainda um pouco a multidão.  Até ao fim, até ao Calvário, alguns levarão as palmas agitando-as e cantando: “Hossana !”    Esses serão felizes pois terão ainda nas mãos e lábios a aclamação para o domingo de Páscoa.  Outros terão os rostos endurecidos, símbolos de corações fechados.  Nos carrascos (de todos os tempos) as palmas transformam-se em chicotes e cordas de flagelação.

JesusACaminhoDoCalvario_BoschNo quadro de JESUS A CAMINHO DO CALVÁRIO com a cruz às costas, Jerónimo Bosch (1450-1516) lança um olhar sem compaixão sobre a pobre humanidade.   O “mau ladrão” (em baixo à direita, com a corda ao pescoço) está hediondo, deformado pelo mal, como na maioria das representações tradicionais. Mas aqueles que o insultam bem como o resto da multidão que invectiva Jesus e o bom ladrão (no alto à direita), são igualmente horrendos. Todos os rostos estão desfigurados pelo vício, pela irritação, pela violência e bestialidade : os olhos esbugalhados e as bocas desdentadas, abertas, prontas a morder. Todos são cúmplices do mal e procura-se em vão Aquele que pode resgatar os outros. Porém, Ele está lá, no centro deste desgraçado mundo.  A paz que emana da Sua face põe em evidência o ódio que desfigura os outros rostos.  Ele,“O mais belo dos filhos dos homens”(Sal.45,3), cala-Se. Jesus tem os olhos fechados e ora : no meio da violência, procura a intimidade dO Pai, oferece já o perdão. Além de Simão de Cirene (do qual só vemos as mãos na cruz) e da Verónica que, com o sudário limpou a rosto de Cristo, ninguém cuida d’Aquele que é o templo dO Espírito. Verónica, que furou a multidão e lhE enxugou rosto, contempla no linho a imagem de quem veio trazer a todos a salvação e a graça.

Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort  (Supl. Panorama,  Ed. Bayard, Paris).

SÁBADO – 12/ABRIL/2014

SÁBADO – 12/ABRIL/2014

Ezequiel  37, 21-28 ; Jeremias 31, 10-11.12ab-13 ; João 11, 45-57

COLOCAREI O MEU SANTUÁRIO NO MEIO DELES. A 1ª leitura e o Evangelho são dois quadros radicalmente diferentes que se comple-mentam e não podem ser entendidos um sem o outro. Tal é o paradoxo da lógica de Deus que apenas O Espírito Santo a pode revelar. Deus fala a nossa linguagem e revela-nos as aspirações mais profundas; imaginemos o que as promessas evocariam aos deportados da Babilónia : o regresso, a unidade, a paz, a intimidade com Deus e O Seu Reino alargado a todas as nações…  Em suma, a terra transformada num paraíso. O texto do evangelho fala dos preparativos da Paixão e evidencia uma razão que teve grande papel nos acontecimentos : a “necessidade” sentida pelos responsáveis de Israel de assegurar a coesão política do povo em torno da Lei, a fim de resistirem aos romanos.  Jesus foi condenado à morte, porque a sua pregação se arriscava a destruir uma situação já em si frágil. Os profetas incomodaram sempre os políticos e Jesus não será, nem ontem nem hoje, o último da lista.   Mas, lido na perspectiva da 1ª leitura, o desígnio dos sumo-sacerdotes revela-se fútil : para Deus não se tratava só do povo de Israel e do Templo de Jerusalém, mas de todas as nações e do novo Santuário que é O Corpo de Jesus Cristo.  Temos que entrar, nestes dois níveis, na meditação da Paixão de Cristo : seguir com Jesus o drama da última semana e do caminho da Cruz e, acreditar que é graças a esta semana e caminho que a Aliança, entre Deus e todos os homens, misteriosamente Se renova e aprofunda.

Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort   (Supl.Panorama, Ed. Bayard, Paris)

SEXTA-FEIRA – 11/ABRIL/2014

SEXTA-FEIRA – 11/ABRIL/2014

Jeremias  20,10-13 ; Sal 17, 2-7 ; João 10, 31-42

“AS OBRAS DE MEU PAI”  (Jo.10,31-42). Jesus faz um raciocínio extenso e há que esforçar-nos para o compreender: a Escritura chama “deuses” a quem a Lei se dirige; logo, chama assim ao Povo de Israel que recebe e “cumpre” a Lei.   As obras da Lei têm portanto um real valor de divinização. À “fortiori”,  Aquele que, vindo de Deus, cumpre as “obras de Deus” pode duma forma absolutamente nova chamar-se Filho de Deus, sem que mereça censura por Se fazer Deus. O que se pedia aos Judeus era que reconhecessem o carácter divino daquilo que Jesus fazia – em termos de ensinamentos, de misericórdia e de milagres – a fim de discernirem, a partir dessas obras extraordinárias que transcendiam a lei (sem todavia abolir o significado da Aliança), a real divindade do Enviado.  Ora este discernimento que Jesus propõe, também nós teremos que fazer relativamente às pessoas e ás actividades que, hoje, se reclamam ser do Evangelho. A atitude fundamental deve ser de conversão : não resistir à Verdade onde ela se apresentar, mesmo que ponha em questão este ou aquele aspecto da nossa vida, que sendo bom pode sempre ser melhor.   Senhor não me deixes impedir o sopro dO Espírito !

Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort   (Supl.Panorama, Ed. Bayard, Paris)

QUINTA-FEIRA – 10/ABRIL/2014

QUINTA-FEIRA – 10/ABRIL/2014

Génesis 17, 3-9 ; Sal 104, 4-9 ; João 8, 51-59

AsPromessasDeDeusAAbraao“JÁ NÃO TE CHAMARÁS ABRÃO, MAS SIM ABRAÃO” (Gén.17,3-9). Nada se compreende da entrada de Deus na vida de Abraão, se não se vir nela a entrada de Deus na condição humana, o nascimen-to dO Verbo na carne:“Abraão viu o Meu dia e rejubilou”.  Reciprocamente, se não houver da nossa parte resposta idêntica à de Abraão, a Encarnação permanecerá para nós sómente “um dogma”.  A sua 1ª resposta, tinha sido de silêncio : metera-se a caminho, sem comentários. (Pensamos no silêncio ainda mais interior de Nossa Senhora).    Se consentirmos este silêncio, faremos a experiência de um nascimento : alcançaremos a nossa fé profunda e original, e como Abraâo,o nosso autêntico nome: tornar-nos-emos filhos de Deus. Mas a este nome só o conheceremos verdadeiramente no final da nossa resposta : “Ao vencedor Eu darei um nome novo que ningué conhece, além de quem o recebe…Eu gravarei nele o nome dO Meu Deus,… e O Nome novo que Eu tenho”. Como isto faz ridículas as nossas ambições camu-fladas, as nossas pretensões, e todas as formas de prestígio que tanto gostamos de acrescentar ao nosso nome !  Em vez de procurar a própria glória, deveriamos viver no deslumbramento do que Deus fez por nós e em nós, e repetir-lhO nas nossas acções de graças.

“EU SOU ! ”(Jo.8,51-59). Quanto mais se medita o Cap.8 de S.João, que temos vindo a ler na semana, mais se compreende a necessida-de dum coração puro e alma de pobre para se confessar que Jesus é : “Eu Sou”; que Ele tem Deus como verdadeiro Pai e que os Seus ensinamentos são não só uma verdade, mas a Verdade.     Isto não se aplica apenas aos fariseus do tempo de Jesus que, vendo-O face a face deveriam ter confessado a Sua dignidade absoluta, é-o também para nós.   Claro que nós confessamos o mistério de Jesus com os lábios e nos termos exactos da nossa tradição cristã, mas conhecê-lO-emos ?   E conheceremos O Seu Pai ?  Todavia por o mistério de Jesus nos assombrar sempre de novo, com o enlevo do primeiro instante em que só O entrevimos, talvez seja sinal de que não estamos longe dO Reino.  Outro sinal será o acolhimento com atenção, sem inveja, com abertura e discernimen-to,  de todos aqueles que sabem mais do que nós e são movidos pelO Espírito nos caminhos traçados pela novidade do Evangelho. Um terceiro sinal será entrever Jesus, senão expontâneamente, pelo menos ao segundo olhar, no menor (e no mais importante) dos homens que encontrarmos no caminho e, por isso, ter com todos eles atitudes de acolhimento, de dom.    Porém, para lá destes sinais, será sobretudo o coração que devemos escutar para o ouvirmos dar testemunho silencioso do que, verdadeiramente, Jesus “É”.

Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort   (Supl.Panorama, Ed. Bayard, Paris)