Apartes

SEXTA-FEIRA – 25/JULHO/2014

2 Coríntios 4, 7-15 ; Sal 125,1-6 ; Mateus 20, 20-28

“TRAZEMOS NO NOSSO CORPO A MORTE DE JESUS…” (2Cor.4,7-15). A expressão de Paulo é violenta: para anunciarem o Evangelho sempre mais longe, os Apóstolos correm riscos enormes, descritos várias vezes na Encíclica : fadiga, perigos, golpes, prisão, insultos… Eles não procuram os sofrimentos mas assumem-nos sem temor ; através deles dão a conhecer a maneira como Jesus ama e acolhe mesmo os Seus inimigos. “Sempre e em toda a parte, trazemos no nosso corpo a morte de Jesus” : Paulo fala de “necrose”, ele sabe que o missionário e o pré-gador gastam-se na tarefa e acabam por deixar aí a sua vida. Mas ele também afirma que a força da Ressureição, transfiguradora do fracasso aparente dos Apóstolos, faz crescer a fé dos critãos à sua volta : a vida de Jesus triunfa !

TiagoEJoao_SuicaSONHOS DE GRANDEZA (Mateus 20,20-28). Tiago e João são jovens pescadores de tal modo fervorosos que Jesus os chama “filhos do trovão”. Uma aldeia da Samaria recusa-lhes hospitalidade, e eles querem sobre ela o fogo do céu ! E nem após o anúncio da Paixão a sua audácia desaparece, ao ponto de pedirem a Jesus os primeiros lugares no Seu Reino. Eles até deixam a mãe pedir isso aO Mestre. A resposta de Jesus continua a jorrar, a varrer os sonhos de grandeza das“colunas” da Igreja até ao fim dos tempos: “Quem quiser ser grande será vosso servo; e quem quiser ser o primeiro será vosso escravo”. Mensagem ardente de actualidade.

Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard) . Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

QUINTA-FEIRA – 24/JULHO/2014

Jeremias 2, 1-3. 7-8.12-13 ; Sal 35, 6-11; Mateus 13,10-17

“DEUS EXPRIME O SEU SOFRlMENTO” (Jer.2,1-3.7-8.12-13). “O Meu povo cometeu um duplo pecado(…) : eles abandonaram-Me, a Mim fonte de água viva, e escavaram cisternas fissuradas que não retêm a água!”. Pela boca de Jeremias, Deus exprime o Seu sofrimento. Com os olhos fixos na fonte inesgotável que brota do lado trespassado de Jesus, as palavras de S.Bernardo emergem do fundo da minha memória: “Os cravos e as chagas gritam que na Pessoa de Cristo, Deus reconcilia-Se com o mundo. O segredo do Seu coração mostra-se nú nas chagas do Seu corpo. Nada, melhor que Suas chagas, podia iluminar com plena luz a doce piedade de NOS Senhor”. (Sermões sobre o Cântico dos cânticos, sermão 61,4). Irmã Benedita da Cruz.

“PORQUE FALAS À MULTIDÃO EM PARÁBOLAS ?” (Mateus 13,10-14). Eis uma pergunta pertinente. Ao contrário dum ensino magistral, a parábola pede ao ouvinte que entre numa lógica singular. Ela por vezes é um pequeno passo ao lado e pode parecer cómica, absurda, ou até chocante. Em todo o caso pretende mexer connosco e interpelar-nos. É uma palavra que nos deixa pouco à vontade. Cuidado porém se dissermos “Ah, isso eu já sabia !”, porque nos arriscamos àquilo que Jesus denuncia: “eles ouvem sem escutar e sem compreender”. Jesus nunca escreveu nada e Sua vida é mais que uma parábola, ela é Palavra. Ele ensina-nos, Ele é “O Mestre interior”, como afirma STO. Agostinho. Escutemos atentamente, com os ouvidos e olhos do coração, e seremos felizes. Deus fala-nos.

Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard) . Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

QUARTA-FEIRA – 23/JULHO/2014

STA. BRíGIDA DA SUÉCIA(1303-73). Hoje, festejamos STA. Brígida da Suécia,que João-Paulo proclamou co-padroeira da Europa. Esta mulher do séc. XIV encarna a riqueza de uma vocação feminina fora do comum. Brígida foi uma esposa feliz, mãe de oito filhos. A morte de Ulf, seu marido, orientou-a para uma vida de pobreza e de oração. Fundou uma ordem religiosa onde mulheres e homens consagrados seguiam a mesma regra. Ela foi conselheira dos Papas refugiados em Avinhão e seus passos levaram-na de Roma a Jerusalém. Toda a sua existência, fundada em Cristo, respira uma liberdade e audácia estimulantes, num mundo frio em busca de pontos de referência.

Gálatas 2,19-20 ; Sal 33, 2-11; João 15,1-8 ou Marcos 3, 31-35

“O CRISTO QUE VIVE EM MIM…” (Gál.2,19-20). Mística do Apóstolo Paulo, desapropriado de si mesmo: nele, a partir de agora é Cristo que vive ! A pequena preposição “em” (igual em grego e português), assumiu no grego do Novo Testamento um sentido mais amplo. Depois dos “Setenta”, tradução grega da Bíblia Hebraica, ela traduz uma preposição que, em hebraico, significa simultâneamente “dentro, em” (indicando o lugar ou o tempo) e “por, devido a” (indicando instrumento). É o caso de Paulo. Ele afirma, portanto, simul-tâneamente, que Cristo vive “nele”, em seu lugar, mas também que a vida de Cristo se manifesta “por ele” : o seu testemunho e a sua pregação devem dar a conhecer a todos que Cristo vive para cada um. A mística de Paulo tem sempre uma dimensão missionária.

“JESUS ESTAVA NUMA CASA…” (Marcos 3,31-35). Jesus estava numa casa a ensinar os discípulos. Marcos não diz na Sua casa, pois como sabemos Cristo não tinha sequer uma pedra onde encostar a cabeça. E todavia sentimo-nos bem com Ele em casa! Talvez os membros da família fossem procurá-lO para O levar para outra casa onde julgassem que Ele ficaria melhor do que em casa de “estranhos”. Mas interroguemo-nos : será que Jesus não quer casa própria para poder entrar na casa dos outros e torná-la Sua ? Não será isso que Ele pretende sublinhar ao apontar para os que O escutam e dizer-lhes : “Eis a minha mãe e os meus irmãos !” ? Visto nesta perspectiva este Evangelho é rico de interpretações. Imaginamos os cuidados que o proprietário da casa terá dispensado para receber bem O seu hóspede ; certamente que a terá limpo com todo o esmero. Os cuidados com a casa, com a nossa casa, evo-cam naturalmente o Sacramento da reconciliação. No Apocalipse também se refere uma casa onde O Senhor pretende fazer morada: “Eis que estou à porta e bato, se alguém abrir comerei com ele”(Ap.3, 20). É Ele que nos traz o alimento! ; e pensamos na Eucaristia. Finalmente, num texto trinitário Jesus diz-nos duma forma mais precisa que Ele não virá sózinho : “Se alguém Me ama, Nós viremos e faremos na sua casa a Nossa morada” (Jo.14,23).

Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard) . Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

TERÇA-FEIRA – 22/JULHO/2014

MulherPorqueChoras_BrouwerSTA. MARIA MADALENA. Natural de Magdala, junto do lago Tiberíades, manteve-se com Maria e João aos pés da cruz, na crucificação e morte de Jesus. Ao terceiro dia, na madrugada da Páscoa, encontrou o túmulo vazio, viu Cristo, e correu a anunciar a extraordinária notícia aos discípulos.

Cântico 3,1-4a ou 2 Coríntios 5,14-17 ; Sal 62, 2-6. 8-9 ; João 20, 1.11-18

“TODA A NOITE TE PROCUREI…” Segundo o testemunho dos evangelistas, Maria Madalena fazia parte do grupo de mulheres que seguia Jesus. O verbo “seguir” tem múltiplos sentidos pois é possivel seguir os passos de alguém de modo mais ou menos fiel. Maria Madalena é o modelo da fidelidade absoluta. Esta expressão é um eco das palavras de São João a respeito de Cristo: “Jesus, tendo amado os seus, amou-os até ao fim” (Jo.13,1). Madalena foi um eco fiel d’Aquele a quem amou até ao fim, porque se sabia amada por Ele até ao extremo. O que significará isso para uma mulher ? De facto, a sua cura por Jesus, que a libertou de “sete demónios”, dos quais não se especifica a natureza, não suscitou apenas mero reconhecimento, mas um sentimento que foi a porta de entrada duma fé que, daí em diante, nada nem ninguém pôde destruir. A sua fé foi mais forte do que a morte : ela pressentia que não tinha acabado tudo, senão porque procuraria um cadáver ? Mas o seu amor foi ainda mais forte que a sua fé, e não terminou ali. No seguimento do encontro com O Senhor ressuscitado ela tornou-se a “Apóstolo” dos Apóstolos ; Maria Madalena é a mensageira da Boa-Nova e o seu ardor convida-nos a acreditarmos igualmente nesse “laço que não morre jamais”. O texto do Cântico (3,1-4a) aplica-se-lhe, pois, inteiramente, e ao lê-lo, vê-mo-la transformada no modelo da vida mística dos que procuram na noite a grande luz das suas vidas, sabendo que só a encontrarão se insistirem na busca.

Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard) . Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

SEGUNDA-FEIRA – 21/JULHO/2014

SaoLourencoDeBrindesS. LOURENÇO DE BRINDES (1559-1619). Graças aos seus dotes de poliglota este religioso capuchinho foi enviado a pregar em toda a Europa, especialmente na Alemanha. Efectuou também numerosas missões diplomáticas por conta da Santa Sé. João XXIII proclamou-o, em 1959, Doutor da Igreja.

Miqueias 6,1-4. 6-8 ; Sal 49, 5-6. 8-9.16bc-17. 21. 23 ; Mateus 12, 38-42

“O SENHOR ENTROU EM LITíGIO” (Miq.6,1-4.6-8). A forma literária de “litígio, processo”, é frequente nos profetas. Ela comporta acusações (enunciado de afrontas), por vezes seguidas de sentenças. Aqui, cria-se um verdadeiro diálogo entre O Senhor, a defender a Sua causa, e o povo, empedrenido em práticas de idolatria abomináveis. O mais espantoso é que O Senhor está disposto a considerar-se culpado: “Em que te contristei? Responde-me !” A acusação torna-se lamento, queixa de um amor ferido. O amor dO Senhor pela nossa humanidade inflama a Sua ira até à Cruz. O texto de Miqueias faz parte da antiquíssima liturgia dos “impropérios”, essas queixas de Cristo aos homens que O rejeitam e violentam, cantadas na Sexta-Feira Santa.

A OBSCURIDADE JÁ NÃO DEVE PERTURBAR-NOS (Mat.12,38-42). Nos dias quentes de verão sonhamos com uma teofania luminosa que nos dispensasse de acreditar. O sinal de Jonas dado por Jesus aos escribas e fariseus vem ao encontro deste género de revelação : “O Filho do homem ficará no coração da terra três dias e três noites”. Porquê dar tanta importância à estadia no reino dos mortos ? Porque atesta a realidade da Ressureição pela qual, desde a manhã de Páscoa, já não nos perturba a obscuridade dos nossos túmulos : em Cristo, a vida eterna já começou. “É Jesus de Nazaré que vós procurais?, O Crucificado ? : Ele ressuscitou, já não está aqui !”, repete-nos a invencível esperança.

Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard) . Selecção e síntese: Jorge Perloiro.