Apartes

QUINTA-FEIRA – 19/JUNHO/2014

S.ROMUALDO (1027). Natural de Ravena, fundou uma ordem muito original : a ordem dos “Camalducenses”, que compreendia não só eremitas mas igualmente monges que aspiravam a sê-lo. Todos se encontravam para assistirem à missa.

Ben-Sirá 48,1-15 ; Sal 96,1-7 ; Mateus 6, 7-15

ELOGIO DE ELIAS E ELISEU (Ben-Sirá 48,1-15). Ben-Sirá, O sábio, na primeira leitura do seu livro Eclesiastes, faz o elogio dos profetas Elias e Eliseu.   Eles tinham poder sobre o céu. O autor alude a episódios das suas vidas onde é difícil distinguir a história da lenda. No fundo pouco interessa.  O mais importante para nós é saber que a oração dO Pai Nosso que Jesus nos ensinou tem esse mesmo poder de “forçar” o céu.

JesusEnsinaOPaiNossaAosDiscipulosO PAI TEM A PRIMEIRA PALAVRA (Mat.6,7-15). O ensino de Jesus sobre a oração recor- da-nos o seu fundamento : a confiança que podemos ter nO Pai, Ele que sabe do que necessitamos. O que faz Deus agir em nosso favor não são as nossas palavras ou actos mas a bondade do Seu coração, que antecipa todos os nossos pedidos. O Pai tem a primeira palavra na relação que nos une a Ele e, antes que O procuremos, já está muito adiante. Se a oração do Pai Nosso que O Senhor nos ensina for algo mais do que simples palavras decoradas, se ela impregnar a nossa vida, há-de permitir-nos também fazer descer “fogo” e “chuva” do céu : “Fogo” (Espírito Santo que vem ao mundo) e “chuva” (a graça que transfigura o homem terreno no homem celeste). Jesus diz-nos que não temos necessidade de pedir aO Pai aquilo que necessitamos: Ele sabe melhor que nós aquilo que precisamos. Mas, logo a seguir ensina-nos as petições dO Pai Nosso. Como conciliar isto? Não será a forma de pedir que está em causa? Ou talvez, até mesmo as entoações da voz? Diz-se que a forma de dar vale mais do que aquilo que se dá. A forma de pedir não valerá também mais do que aquilo que se pede? Se isto se verifica no domínio da vida sómente natural não será ainda mais verdadeiro nas nossas relações com Deus? Devemos dizer a Deus : “Dá-me o que Vós quiserdes” ; se a fé, esperança e caridade estiverem presentes nos nossos pedidos que  são tão ignorantes do desígnio de Deus, isso não levará o céu a ir muito além dos nossos desejos, antecipando o que precisamos?

“Meditações Bíblicas”, trad. das Ir.Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama,  Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

QUARTA-FEIRA – 18/JUNHO/2014

S. GREGÓRIO BARBARIGO (1625-97).  Bispo de Pádua, aplicou na diocese as disposicões do Concílio de Trento (reforma dos seminários e santidade dos sacerdotes), inspirando-se no exemplo de S.Carlos Borromeu. Muito generoso com os pobres desejava ardentemente a união da igrejas do Oriente e do Ocidente.  Canonizado (1960) por S. João XIII.

2 Reis 2,1. 6-14 ; Sal 30, 20-21. 24 ; Mateus 6,1-6.16-18

OsProfetasEliasEEliseuA HUMILDADE E A OBRA DE DEUS (2 R.2,1. 6-14). Herdeiro da sabedoria de Elias, Eliseu teve que tentar 2 vezes para conseguir apartar as águas do Jordão com a capa de Elias. O seu primeiro “ensaio” falhado levou-o a voltar-se para Deus, quem, na verdade, agia através dele. A humildade foi indispensável ao profeta! Para ele, como para os discípulos aos quais Jesus se dirige no evangelho, tudo se constrói na simplici-dade da relação com Deus, duma forma escondida, na intimidade do coração. Pouco importa as maravi-lhas que realizarem, o essencial é que estejam conscientes ser Deus a actuar neles. Será sempre assim com quaisquer discípulos: o seu jejum, a sua oração, a sua esmola são o sinal da obra de Deus neles. Jesus volta-se para as “obras” tradicionais da religião : esmola, oração e jejum. Pede que façamos as obras “no segredo”. A ideia é que elas venham do fundo do coração, habitado pelo amor de Deus e dos homens e, assim, terão que ser esquecidas no próprio momento em que as fizermos, mesmo que tenham custado muito, a fim de dar lugar aos outros, sem os expôr ou entesourar.  Se “O Pai” está “no segredo” como poderemos preocupar-nos com o quer que seja, ou com quem seja o outro?  “À máxima de Nietzsche:“Sê aquilo em que te transformas”- escreve J.Guitton (1900-98), “Minhas razões de crer”- o cristão contrapõe “transforma-te naquilo que és”, pois a nossa identidade é O Deus Santo.”

“Meditações Bíblicas”, trad. das Ir.Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama,  Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

TERÇA-FEIRA – 17/JUNHO/2014

BTO. MARIE-JOSEPH CASSANT (1878-1903). Monge trapista do mosteiro de ST Maria do Deserto (Haute-Garonne) que, segundo afirmou o seu mestre de noviços, “ nada fez de extraordinário a não ser a forma extraordinária com que fazia as coisas ordinárias”.  Morreu tuberculoso 8 meses depois de ser ordenado sacerdote. Ele dissera : “Quando eu já não puder celebrar a Eucaristia, Jesus pode levar-me deste mundo”.

1 Reis 21,17-29 ; Sal 50, 3-4. 5-6a.11.16 ; Mateus 5, 43-48

EliasLevaAcabAoArrependimentoDEUS JAMAIS RENUNCIA À VIDA (1R.21,17-29). O Senhor “faz nascer o sol sobre maus e bons”. A história de Acab é disto um exemplo.  Embora o rei tivesse cometido um crime terrível, Deus acabou por Se deixar tocar : a misericórdia foi-lhe concedida. Podemos escandalizar–nos ao ver como é demasiado fácil a Deus aceitar o arrependimento após um assassinato. Mas fixemo-nos sobretudo na misericórdia de um Deus que jamais renuncia á vida. De facto, o Seu desejo de vida para o homem é sempre maior que os actos obscuros deste. Será, ao desejar também a vida, que nós daremos resposta a esta infinita misericórdia.

“AMAI OS VOSSOS INIMIGOS…” (Mat.5,43-48). O “mandamento” de Jesus é considerado uma novidade sem precedentes, muito para além do “amarás o teu próximo” do Levítico (19,18).   Todavia o judaísmo não ignorava o respeito pelo inimigo em desgraça : na Carta aos Romanos(12,20), Paulo cita o provérbio “se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer…”(Prov.25,21).  O inaudito surge quando Jesus pede aos crentes para terem a mesma atitude de Deus, que cuida dos bons e maus.  Para terem o mesmo amor de Deus, o“agapè”,com esse olhar indulgente e favorável, que sempre acredita no outro. O amor de Deus vai até ao perdão incondicional e nós nem sempre somos capazes de perdoar até esse ponto.   Jesus ensina-nos então a remeter-nos ao perdão de Deus : “Pai, perdoa-lhes…”

“Meditações Bíblicas”, trad. das Ir.Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama,  Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

SEGUNDA-FEIRA – 16/JUNHO/2014

BTO. LUIGI MARIA PALAZZOLO (1827-86). Sacerdote, natural de Bérgamo.  Fundou duas congregações dedicadas aos pobres e aos orfãos. Beatificado pelo Papa S.João XXlll em 1963, que salientou a sua qualidade de simples sacerdote regular onde sobressaíam as virtudes da obediência e da fortaleza.

1 Reis 21,1-16 ; Sal 5, 2-3. 5-7 ; Mateus 5, 38-42

SermaoDaMontanha_HenryCollerNÃO VOS VINGUEIS DE QUEM VOS FIZER MAL (Mateus 5,38-42).  As prescrições do Sermão da Montanha não constituem uma espécie de regulamento de vida onde cada ponto terá de aplicar-se com exactidão cega. Felizmente, porque, se fosse assim, poucas seriam as ocasiões para os pôrmos em prática. Não é todos os dias que nos roubam algo do nosso guarda-roupa (aliás, o ladrão foge sem esperar que lhe dêmos o resto); quando nos pedem para andar um quilómetro ou quando nos esbofetearem (se se tratar dum par de bofetadas) as prescrições de Jesus deixam de ser literais.   Não !, elas são antes de mais, e sobretudo, o espírito de um comportamento que nos é pedido e cuja aplicação prática depende das circunstâncias. As palavras de Jesus ganham um valor particular se forem lidas à luz da Sua morte e ressurreição. Elas traçam o Seu auto-retrato, o do Servo sofredor, que suporta os insultos sem responder e dá a vida até ao fim.  Toda a vida de Jesus foi uma preparação para a Sua paixão : Ele viveu este mandamento de amor tanto nos gestos mais escondidos como nas horas mais luminosas da Sua existência. Hoje, somos chamados a construir em nós a Sua semelhança. À força de O olharmos, de escrutinarmos a Sua Palavra, também nós viveremos esse amor extremo, tão difícil de pôr em prática aos olhos humanos.

“Meditações Bíblicas”, trad. das Ir.Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama,  Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE – 15/JUNHO/2014

IconeDaSantissimaTrindadeA Igreja convida-nos hoje a celebrarmos a Santíssima Trindade: Deus único em 3 pessoas. O nosso enten-dimento vacila quando tentamos avaliar este tesouro da nossa fé.  É-nos necessário fazer um novo acto de fé, mesmo não compreendendo tudo e ficando desorientados. Máximo, o Confessor (580-662) ensina-nos a fazer de cada olhar, atento e contemplativo das coisas, uma espécie de experiência trinitária:“o facto de algo existir…remete-nos para O Pai,“Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis…”  – aliás, cada coisa visível é a visibilidade do invisível –  ;  o facto de podermos compreendê-la, revela-nos, nela e a partir dela, uma estrutura prodigiosamente “inteligente” que nos remete para O Filho, Verbo, Sabedoria e Razão dO Pai ; o facto duma coisa ser bela insere-a dinâmicamente numa ordem que tende para a plenitude e nos remete para O Espírito, O Sopro vivificante…”

Êx. 34, 4b-6. 8-9 ; Daniel 3, 52-56 ; 2 Cor.13,11-13 ; Jo. 3,16-18

ELE MESMO DIZ O SEU NOME (Êxodo 34,4b-6.8-9). “O Senhor desceu na nuvem e veio para junto de Moisés”. É Deus que Se apresenta ao homem e não o contrário.  Os convertidos que O procuraram por muito tempo, laboriosamente, por vezes de forma bem dolorosa, sabem-no perfeitamente: há um momento em que Deus Se deixa encontrar, quando Ele assim o quer.    Ele tem sempre a iniciativa do encontro com os homens. É Deus que desce até ao homem.  Para dar a conhecer o Seu Nome, que significa quem Ele é : “clemente e misericordioso, vagaroso para a ira, cheio de amor e de fidelidade”. Mas Ele vem igualmente dizer aos homens o que espera deles. O final da 1ª leitura do livro do Êxodo mostra que Moisés compreendeu isto muito bem : “Tu farás de nós um povo que Te pertença”. O Senhor espera um povo que saiba responder com amor ao Seu amor, com fidelidade – fruto desse amor – à Sua fidelidade.  Uma resposta que é dada pela forma como nos comportamos com os homens, nossos irmãos.

BEM-AVENTURADA TRINDADE (Jo.3,16-18). Os versículos do evangelho fazem parte do “discurso a Nicodemos”.   Ora foi só no final da sua busca feita “de noite” que ele recebeu uma revelação inédita sobre O Deus-Um em que acreditava. Uma noite que, provavelmente, foi também uma noite dO Espírito.  Perplexo perante a pessoa e a mensagem daquele “Mestre de Israel” que era Jesus, ele tomou a iniciativa para O encontrar, interrogando-O e deixando-se interrogar.  É verdade que Nicodemos já conhecia, pelas Escrituras de Israel, o amor dO Altíssimo pela humanidade.  Mas Jesus abre-o ao facto deste amor ter a sua fonte numa vontade de salvação comum em Deus – aqui, entre O Pai e O Filho.  Note-se que a palavra grega (agapè) para significar este amor, conota “o amor que seja mais racional, por implicar conhecimento e julgamento de valor”, a um amor ao qual é “essencial manifestar-se” e “dar provas”. (Léxico Teológico do N.T.). A caminhada de Nicodemos deve encorajar-nos. Ela é o percurso dum crente que, aceitando não compreender tudo, se abre intelec-tual e espiritualmente e nasce para o desconhecido. Não nos admiremos portanto de também estarmos neste caminho, com tudo o que ele possa ter de destabilizador e desconfortável. Porque, apesar de termos sido criados à imagem da Trindade e ser capazes de pressentir como poderá ser o amor em Deus, o dom dO Filho é rico a desconcertar-nos e a “escavar” em nós o desejo dO Espírito. Não é Ele quem nos “guiará para a verdade plena”(Jo.8)? Ele far-nos-á passar dum amor ainda muito egocêntrico para esse amor desinteressado, fonte de felicidade. A compreensão de Deus como comunhão e o alargamento do nosso coração andam a par e passo.

“Meditações Bíblicas”, trad. das Ir.Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama,  Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.