Apartes

1ª QUINTA-FEIRA – 6/NOVEMBRO/2014

SaoNunoDeSantaMaria_BlSÃO NUNO DE STA. MARIA (1347-1394). São Nuno de Santa Maria foi proposto ao mundo inteiro como: “exemplo de vida pautada pelos valores evangélicos, orientado pelo maior bem de todos, disponível para lutar pelos superiores interesses da Pátria e solícito em servir os mais desprotegidos e pobres.”

Filipenses  3, 3-8a ; Sal 104, 2-7 ; Lucas 15, 1-10

OS VALORES CARNAIS (Filip.3,3-8a). Faz-se demasiadas vezes uma interpretação errónea do que Paulo chama “carne” mas que fica aqui bem traduzida por “valores carnais”. Nunca se trata de uma desvalorização do corpo ou da sexualidade. Os valores carnais não são nele nem desvalorizados nem desprezados e Paulo patenteia as boas razões para se sentir orgulhoso: orgulhoso das suas raízes, da sua pertença ao povo amado por Deus e da sua própria perfeição na observância da Lei. Mas que valerá tudo isso diante do amor infinito e incondicional revelado em Cristo? Deslumbrado pela descoberta de uma mise-ricórdia insuspeitada, que se aplica a todos e só pede para ser acolhida, Paulo considera tudo o resto como apego fútil e obstáculo.

“Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

QUARTA-FEIRA – 5/NOVEMBRO/2014

SantaSilviaSTA. SíLVIA (592). Nobre romana, muito piedosa, mãe do futuro papa S.Gregório Magno, o qual, nos seus escritos, relata ter chegado ao cume da oração e da penitência sendo exemp. de excelência para os outros.

BeataFranciscaDAmboiseBTA. FRANCISCA d’AMBOISE (1427-1485). Duquesa da Bretanha, enviuvou sem filhos e fez-se carmelita. Em 1463, com o BTO. João Soreth, fundou o 1º convento carmelita feminino francês em Bondon, Nantes.

Filipenses  2, 12-18 ; Salm 26, 1. 4. 13-14 ; Lucas 14, 25-33

“QUEM DENTRE VÓS NÃO RENUNCIAR A TODOS OS SEUS BENS…” (Luc.14,25-33). Mais uma vez, a lógica dO Reino nos põe de pernas para o ar a caminhar sobre as mãos.  Dum lado, os cálculos de um construtor ou a estratégia guerreira de um rei que conta as tropas para ver se são suficientes…   Questão de bom senso prático, diremos nós! Por outro lado, um cálculo que convida a tudo perder… Para o discípulo, a garantia do resultado reside numa escolha preferencial : o amor de Cristo. O equipamento de partida, é a preferência de Cristo a tudo o resto. A adesão a Cristo deve apresentar-se-nos não como um programa pré-estabelecido mas como uma confiança renovada n’Aquele que nos chama para O seguir. “Não como um jogo de xadrez, em que tudo é calculado, mas como uma dança nos braços da Tua graça”, dizia Madeleine Delbrêl.

“Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

TERÇA-FEIRA – 4/NOVEMBRO/2014

SaoCarlosBorromeuS. CARLOS BORROMEU (1538-84). Desde STO. Ambrósio, no séc.IV, ao cardeal Carlo Maria Martini (falecido em 2012), a diocése de Milão teve muitas vezes à frente homens de fé e envergadura, à imagem do BTO. PauloVI ou de S.Carlos Borromeu.  Este último nasceu num tempo em que a Igreja católica, fortemente abalada pelo desafio do protestantismo, começou a ter consciência da necessidade de uma reforma profunda. Sobrinho do papa Pio IV, que o tinha nomeado cardeal com 22 anos de idade, Carlos Borromeu foi um dos principais actores da renovação do catolicismo.  Primeiro, ele contribuiu para o recomeço do Concílio de Trento em 1562, e depois, para a sua conclusão no ano seguinte : “Eu desejo que, a partir de agora, nos es-forcemos por aplicar as decisões deste santo concílio”, escrevia então. Juntado os actos às palavras, ele próprio se empenhou a promovê-lo na diocése de Milão para onde fora nomeado arcebispo em 1564. A formação do clero e dos fiéis era medíocre? Borromeu abriu os 1OS seminários diocesanos e restaurou o ensino do catecismo. A vida religiosa era fraca ?  O arcebispo restabeleceu a disciplina e a piedade. Para adaptar as decisões gerais do concílio à realidade do terreno, ele convocou também numerosos sínodos e, mais ainda, visitou diversas vezes todas as paróquias da sua vasta diocése, indo mesmo às mais recônditas! Alguns opuseram-se à sua vontade de reforma e tentaram até assassiná-lo! Mas a tenacidade e a humildade deste prelado notável, que amava tanto os fiéis que ficou no meio deles durante a terrível epidemia da peste de 1576, depressa acalmaram as animosidades. Carlos Borromeu morreu em 1584, com apenas 46 anos, literalmente esgotado pelo apostolado. Mas aquele que encarnou o arquétipo do bispo prégado pelo concílio de Trento teve uma irradiação póstuma considerável na Europa inteira. Ainda no séc.XX, os dois papas recentemente canonizados – S. João XXIII e S. João-Paulo II – tinham por ele uma devoção profunda. Tal como o seu predecessor Pio XI que, em 1934, proclamou S. Carlos Borromeu padroeiro das obras catequéticas. Peçamos-lhe pelo Sínodo 2016 da diocese de Lisboa!

Filipenses  2, 5-11 ; Sal 21, 26b-30a . 30c-32 ; Lucas 14, 15-24

PASSAR À OUTRA MARGEM (Filip.2,5-11). Para se interiorizarem as disposições que foram as de Cristo é necessário passar tempo com Ele na leitura do Evangelho e na oração. A oposição entre a “condição de Deus” e a “condição de servo” desperta-nos a atenção. Que nos diz ela, senão que, por amor dO Pai e da humanidade é “possível” renunciar às suas prerrogativas, tornar-se vulnerável, honrando o outro fazendo-se seu servo.  Paulo não nos convida aqui nem à auto-destruição nem à auto-depreciação, mas sobretudo a passar para essa “outra margem” que consiste em deixar-se habitar e mover pelo espírito de Cristo.

“VINDE, O BANQUETE AGORA ESTÁ PRONTO…” (Luc.14,15-24).  Quantas vezes Jesus nos é mostrado a comer ou a falar da refeição! Com efeito, a mesa é o lugar natural do convívio, do acolhimento. Ou, pelo contrário, da exclusão : recordo aquela refeição oferecida pelo sogro de Martin Luther King a um amigo branco ;  eles não comeram juntos, porque seria impensável que um Branco e um Negro se sentassem à mesma mesa. Ora no evangelho acontece precisamente o inverso! As nossas refeições na terra devem ser o sinal do banquete das núpcias dO Reino, banquete ao qual todos somos chamados: ali não não haverá nem ricos nem pobres, mas apenas filhos de Deus. Para os nossos sinais aqui na terra poderem ser disso Sinal, há que inventar fórmulas que tornem  os nossos costumes familiares, regionais, culturais, um reflexo do Evangelho.

“Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

SEGUNDA-FEIRA – 3/NOVEMBRO/2014

SaoMartinhoDeLimaS. MARTINHO DE LIMA (1579-1639). Nasceu em Lima, filho ilegítimo de João de Porres, nobre espanhol pertencente à Ordem de Alcântara e descendente de cruzados, e de Ana Velásquez, negra alforriada. O pai nunca reconheceu a sua paternidade. Martinho tornou-se aprendiz de barbeiro-cirurgião aprendendo numa farmácia algumas noções de medicina. Cedo a vocação religiosa falou mais alto e, com muito custo, conseguiu professar como irmão leigo, vestindo o hábito dominicano. Nunca ocioso e procurando sempre servir aos outros, era o porteiro, ia à enfermaria, cortava o cabelo dos 200 frades, era o sineiro, e dispensava ainda 6 a 8 horas por dia à oração. Beatificado (1837) por Gregório XVI, foi canonizado em 1962  por S. João XXIII.

SantaAplaisDeCudotSTA. ALPAIS DE CUDOT (1150-1211). Esta jovem pastora da Região de Sens quando ficou leprosa foi posta num cubículo pela família para morrer à fome. Miraculosamente curada, viveu semiparalizada 40 anos sem comer (inédia), com êxtases e visões, a ensinar, alimentando-se exclusivamente da Eucaristia. Foi canonizada pelo papa Pio IX (1874).

Filipenses  2, 1-4 ; Sal 130, 1. 2. 3 ; Lucas14, 12-14

UMA COMUNIDADE EM EQUILíBRIO PRECÁRIO (Filip.2,2-4).  Talvez sejamos desconfiados perante a insistência de Paulo na busca da unidade, por vivermos perseguidos pelo espectro do pensamento único ou do “totalitarismo”.   Por isso, é importante resituar estes versículos no contexto duma comunidade em equilíbrio precário, ameaçada por fora e por dentro. Paulo não fustiga a diversidade, mas sim essas plantas amargas que levam à divisão e à desagregação do Corpo eclesial (intrigas, vaidade, busca exlusiva do próprio interesse), fazendo-O assim passar ao lado da sua missão : ser um lugar de reconforto, de encorajamento, de comunhão. “…considerai os outros superiores a vós próprios”. O apóstolo deve batalhar, e o vocabulário da unidade superabunda neste pequeno texto.   Mas também está presente no texto grego o vocabulário da reciprocidade que é dificil de expressar em português.nLiteralmente devia traduzir-se : “tende bastante humildade para considerar os outros superiores a vós mesmos e reciprocamente”. É um ponto importante pois os cristãos tentam com frequência, e admiravelmente, viver a humildade nas pégadas de Cristo, mas esquecem-se por vezes de acolherem a reciprocidade da parte do outro, e assim também aceitarem ser como aquele que tem neces-sidade de ajuda para se erguer e ser confortado, olhando para ele com reconhecimento e admiração.

“Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.

XXXl DOMINGO DO TEMPO COMUM – 2/NOVEMBRO/2014

FieisDefuntosCOMEMORAÇÃO DE TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS.
A Esperança é força e luz. É a mensagem reconfortante das leituras deste domingo. Ao celebrarmos Cristo morto e ressuscitado, nós afirmamos a nossa fé. Sim!, Ele abre-nos a vida eterna e traça-nos o ca-minho que ali nos conduz. Os nossos defuntos já nos precederam na Sua casa. Não faltemos ao encontro e preparemo-nos.

Sabedoria 2,1-4a.22-23; 3,1-9 ; Sal 26, 1. 4. 7-9a.13-
14 ; Romanos 8,14-17 ; Lucas 12,35-38.40

HERDEIROS COM CRISTO (Romanos 8,14-17). Qual é a promessa feita aos humanos senão “a glória”, humanos que têm todavia os seus dias contados, uma vez que Deus “lhes determinou um tempo e um número de dias” (Ben-Sirá 17, 2)? Paulo não nega a realidade do sofrimento ligada, entre outras, à experiência da morte, mas vai bem mais além : primeiro, recordando aos seus correspondentes que não estão sós (mas “com Cristo”) ; depois, dizendo-lhes que a morte é apenas uma passagem. Temos portanto a promessa de entrarmos na herança de Deus, que, dito de outra forma, é uma promessa de incorruptilidade e de imortalidade. Este dado da fé na ressurreição está no centro da mensagem cristã. Aliás, “se nós tivermos esperança em Cristo só para esta vida, seremos os mais miseráveis dos homens” (1 Coríntios15,19). Finalmente é importante sublinhar o papel dO Espírito. Tal como presidiu à criação (Génesis 1,2), Ele preside à nova Criação. Espírito vivificante, Ele é O princípio da nossa regeneração, da transformação do nosso corpo mortal. Estamos no cerne de um paradoxo que não foi mais fácil de viver pelos primeiros cristãos do que é para nós (ver 1 Tessal. 4,13-18). É verdade que nós somos “os grandes vencedores” no sentido de que “a morte  (…)  não poderá separar-nos do amor de Deus que está em Jesus-Cristo nosso Senhor…” (Romanos 8,37-39), e portanto ela não nos impedirá de vivermos “com Ele para sempre”. Todavia nós somos ainda confrontados com “o aguilhão da morte”, com a dor da separação e o medo daí resultantes. Ora este medo faz que vivamos a nossa existência “numa condição de escravos” (Hebreus 2,15). Então, abramo-nos aO Espírito de vida, princípio de incorruptibilidade, que nos enxerta em Cristo e nos faz entrar na liberdade dos filhos, tornando-nos desde já participantes da vida divina. Será este Espírito que nos fará expe-rimentar que os dons de Deus – incluindo o dom da vida – são irrevogáveis (Rom. 11,29).

A CHAMA DA ESPERANÇA (Luc.12,35-38.40). O homem não foi feito para morrer. Daí sofrermos tanto com a morte de alguém próximo. Bruscamente, não sabemos mais nada do ser amado. Para onde foi? Como se sente agora? Quando iremos revê-lo? Esta expectativa após a morte é muito difícil.  É necessário forçar-nos a viver apesar da au-sência, encontrar a coragem para retomar as actividades quotidianas, guardar em nós a chama da esperança ilumi-nando os outros no seu próprio desgosto…  Tudo isto prova as nossas forças e, muitas vezes, a nossa fé. Sómente O Mestre é capaz de dissipar as trevas das nossas impaciências e dúvidas. Com efeito, só Ele pode reunir todos aqueles que O amam. Felizes os servos que O Mestre, à Sua chegada, encontrar vigilantes. A morte volta-nos para Deus. Mas quem espera quem, finalmente? Deus tanto é Quem esperamos como Aquele que nos espera. Um verdadeiro Pai não pode abandonar os Seus filhos. Os nossos queridos mortos são para nós a lembrança desta promessa divina.   O evangelho de Lucas pretende mostrar que nada se perde no amor. A felicidade que tenhamos vivido em conjunto não se dispersa depois da morte. Pelo contrário, ela reúne-nos. Partilhamos esta esperança com os que nos precederam no caminho da vida, da qual a Igreja faz hoje memória. O dia de todos os fiés defuntos não deve ser dia de tristeza ou de lamentações. Ao irmos ao cemitério, é-nos possível contemplar o projecto de Deus para o homem : uma imensidade e uma eternidade de amor que já começou para cada um de nós.

“Meditações Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.